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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Colaboradores do Planeta Nacional: Quadrinhos Nacionais – Origens – Parte II

Olá, leitores do Planeta Marvel/DC, estou continuando a viagem pelo tempo que iniciei na primeira parte desses artigos sobre a origem e os primórdios dos quadrinhos nacionais, os primeiros personagens e as publicações que marcaram a história investindo no talento nacional da arte de criar HQs remontam do final do século 19 para meados do século 20 e o movimento que começou timidamente aos poucos foi tomando força e se espalhando pelo território nacional, antes de continuar uma breve satisfação sobre essa coluna: como o tema principal do blog é o que acontece nos Universos Marvel e DC, eu não tinha investido em uma série de textos sobre o trabalho dos profissionais nacionais e os seus personagens criados em nosso país, mas agora busco me redimir e prestar as devidas homenagens às obras desses talentosos artistas cuja qualidade é reconhecida até nos concorridos mercados do exterior. Desculpas dadas, podemos prosseguir.


Leia a Parte I aqui.

Continuando na década de 60, mais precisamente em sete de abril de 1963, é fundada a Escola Panamericana de Arte em São Paulo com aulas presenciais e curso por correspondência, uma iniciativa pioneira para ensinar as mais diversas formas de artes publicitárias e gráficas profissionais e teve no seu quadro de professores nomes de peso como Hugo Pratt, criador de Corto Maltese; Nico Rosso, famoso por seus trabalhos em histórias de terror como Drácula; e Jayme Cortez, importante chargista e desenhista responsável por artes para revistas como Terror Negro, Sobrenatural, Mazzaroppi e Oscarito & Grande Otelo, em homenagem ao conjunto de sua obra os organizadores do Prêmio Angelo Agostini criaram o Troféu Jayme Cortez dado anualmente a uma personalidade ou instituição pela sua contribuição no mercado de quadrinhos, prova de que o mercado de quadrinhos apresentava um futuro promissor.

Em 1964 o desenhista Minami Keizi apresenta o personagem Tupãzinho, O Guri Atômico, inspirado em Astro Boy, inicialmente seguindo o estilo mangá para depois adequar ao estilo americano, muito mais popular na época e o personagem chega a ganhar uma revista pela Editora Pan Juvenil de Salvador Bentivegna e Jinki Yamamoto, em seguida os mesmos convidam Keizi a ser sócio da EDREL (Editora de Revistas e Livros), aonde surgiu o talento do descendente de japoneses Cláudio Seto criador de personagens como Flavo, Ninja, O Samurai Mágico, Maria Erótica e O Samurai, outros descendentes também trabalharam na editora como Fernando Ikoma, um dos roteiristas de O Judoka e os irmãos Paulo e Roberto Fukue, este último é um ilustrador que trabalhou em revistas como Senninha, Sítio do Pica Pau Amarelo e A Turma do Arrepio. Edson Rontani lança em 1965 Ficção, o primeiro fanzine brasileiro dedicado a histórias em quadrinhos, o artista Gedeone Malagola criou heróis brasileiros para a editora GEP baseado em heróis americanos como Raio Negro, inspirado no Lanterna Verde, o Homem-Lua e HydroMan, inspirado no Namor, também surgem Fantar de Milton Mattos e Edmundo Rodrigues e Bola de Fogo, O Homem do Sol, baseado no Tocha Humana e que só teve uma edição. Em 1967 Colonesse cria Mirza, A Mulher Vampiro e Helena Fonseca com Nico Rosso criam Naiara, A Filha do Drácula para concorrer com a personagem de Colonesse. Em 1969 Pedro Anisio e Eduardo Baron criam O Judoka, que contou com as artes de Eduardo Baron, Mário José de Lima, Fernando Ikoma e Floriano Hermeto, este chegou a ganhar uma adaptação para os cinemas nacionais em 1973, em junho do mesmo ano Jaguar com os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral lançam o semanário O Pasquim, famoso por reunir grandes talentos dos quadrinhos e das charges nacionais como Ziraldo, Millôr Fernandes, Henfil, Prósperi e Fortuna, esta publicação ficou famosa por criticar fatos e normas do governo, chegando a ser perseguida pelas autoridades federais. Zé do Caixão, personagem de José Mojica Marins, ganha uma revista em quadrinhos: O Estranho Mundo de Zé do Caixão, por R.F. Lucchetti, também criador de Juvêncio, O Justiceiro do Sertão.

Entramos na década de 70 e os quadrinhos infantis estão em alta graças ao crescente sucesso dos personagens de Maurício de Sousa, a Editora Abril monta um estúdio para artistas nacionais trabalharem com personagens licenciados da Disney, principalmente o Zé Carioca e também com alguns personagens dos estúdios Hanna-Barbera, a Abril adquiriu os direitos para produção e publicação de suas histórias em território nacional. Em 1974 a Abril lançou a Revista Crás, uma iniciativa de abrir espaço para material nacional como Satanésio de Ruy Perotti e Kaktus Kid de Canini, conhecido desenhista do Zé Carioca, que durou até 1975, antes em 1971 foi lançada uma publicação chamada Super Plá que durou sete edições e trouxe várias tiras estrangeiras, entre elas duas brasileiras: O Praça Atrapalhado, uma versão nacional do Recruta Zero, e Dr. Estripa de Eduardo Carlos Pereira. Em 1972 Keizi sai da EDREL devido a divergências na sociedade e funda a Minami & Cunha Editores com Carlos da Cunha, a editora lança as revistas Múmia e Lobisomem escritas por Gedeone Malagola e desenhadas por Ignácio Justo, Nico Rosso e Kazuhiko Yoshikawa, nessa editora foi publicada a revista Dr. Mistério que não era ninguém senão o Dr. Estranho da Marvel, a Panini Comics mencionou brevemente esse fato no texto de introdução na estreia da revista do Doutor Estranho. Em 1973 é lançada A Patota que trazia os personagens nacionais Marly, de Milson Abreu Henriques e Dr. Fraud, de Renato Canini em meio a pesos pesados estrangeiros como Mafalda, Snoopy, Zé do Boné e Hagar, O Horrível, nesse mesmo ano Henfil se muda para os Estados Unidos para fugir da ditadura e se tratar de leucemia, lá consegue que sua criação Os Fradinhos seja distribuída pela Universal Press Syndicate, mas não atinge sucesso devido à alta censura americana e O Cruzeiro Infantil publica as aventuras do Capitão Asa, famoso herói de programas de rádio. Em 1974 é criado o evento do Salão Internacional do Humor de Piracicaba e em 1975 a editora O
Cruzeiro é fechada tendo seus títulos assumidos pelas editoras Vecchi e Abril, nesse ano a Bloch Editores assume todos os títulos Marvel no Brasil e entre esse material tinha a revista do Mestre do Kung Fu que trazia material brasileiro criado por Júlio Shimamoto e entre 1976 e 1987 a editora publicou regularmente a revista baseada no programa Os Trapalhões produzida pelo estúdio do quadrinista Ely Barbosa. No mesmo ano a editora Vecchi lança MAD, misturando material estrangeiro e nacional sob o comando do cartunista Ota, e SPEKTRO no ano seguinte republicando histórias lançadas na La Selva e trazendo material novo pelas mãos de Manoel Ferreira, Itamar, Cesar Lobo, Eugênio Colonnese, Julio Shimamoto e Flavio Colin, mais publicações contendo material nacional foram surgindo como Gibi Semanal, Almanaque do Gibi, Gibi Especial, Almanaque do Gibi Nostalgia republicando material clássico como A Garra Cinzenta e Almanaque do Gibi Atualidade, com material recente. Em 1975 é lançada a revista O Bicho trazendo histórias de Márcio Pitiliuk, Paulo Caruso, Fortuna, Guidacci, Nani, Coentro e relançando personagens como Ignorabus, O Contador de Histórias de Carlos Estêvão e Millôr Fernandes e O Capitão de Jaguar, alunos da USP lançaram a
revista Balão de Laerte Coutinho e Luiz Gê, com grandes nomes como Paulo e Chico Caruso, Xalberto, Sian e Guido, em 1977 a Editora Três publica a revista do Falcon, famoso boneco de ação da Estrela na época, com roteiros de Teresa Sainderberg e Walter Negrão, a arte ao cargo de Antonino Homobono e Michio Yamashita, no ano seguinte Cláudio Seto monta um núcleo de quadrinhos na Editora Grafipar com profissionais como  Mozart CoutoWatson PortelaRodval Matias, Ataíde Braz, Sebastião Seabra, Franco de Rosa, Flávio Colin, Júlio Shimamoto e Gedeone Malagola, nisso lançou a revista com novas histórias da sua personagem Maria Erótica e em 1979 a Vecchi publica o faroeste Chet dos irmãos Wilde e Watson Portela. 



Chegamos à década de 80, já iniciada com o lançamento de O Menino Maluquinho, criação máxima de Ziraldo em 1980, no ano seguinte Rodolfo Zalla e Eugênio Colonnese transformam o estúdio D-Arte em editora responsável por títulos como Calafrio, Mestres do Terror, o palhaço Sacarrolha de Primaggio Mantovi, em 1982 a RGE volta a lançar histórias do Fantasma de Lee Falk feitas por artistas nacionais como Walmir Amaral, Adauto Silva, Wanderley Mayhe, Milton Sardella e Júlio Shimamoto, Cláudio Seto lançou dois títulos tentando criar mangás brasileiros que foram Super-Pinóquio e Robô Gigante, mas ambos só tiveram a primeira edição e ele também lançou Katy Apache, uma brasileira criada por índios Apaches, seguindo a linha faroeste Mozart Couto lançou Jackal, Watson Portela lançou Rex, inspirado em Jonah Hex, Johnny Pecos de Rodolfo Zalla e até o empresário Beto Carreiro teve histórias em quadrinhos estilo faroeste pelas mãos de Gedeone Malagola e Eugênio Colonnese, importante perceber como estilos heroicos em evidência na época influenciavam os autores que no caso eram os westerns americanos e os filmes orientais de Kung-Fu, o gênero japonês do mangá só viria a ganhar força anos mais tarde. O ano de 1984 é marcado pela criação do Dia do Quadrinho Nacional em homenagem ao cinquentenário do lançamento de O Suplemento Juvenil e é criada a Abrademi, Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações, o mestre Osamu Tezuka, conhecido por personagens como Astroboy, Kimba, O Leão Branco e A Princesa e O Cavaleiro, vem ao Brasil para conhecer o trabalho dos artistas brasileiros aonde encontra e se torna amigo de Maurício de Souza, os dois chegam a planejar crossovers dos seus personagens, mas Tezuka faleceu antes que isso pudesse acontecer.
Deodato Borges e Deodato Borges Filho publicam “3000 Anos Depois” e “A História do Paraíba”. Aproveitando a onda da passagem do Cometa Halley em 1986, Marcelo Diniz lança “A Era dos Halley” com Luiz Antonio Aguiar nos roteiros e Lielzo Azambuja nos desenhos, nesse ano as Organizações Globo compram a Livraria do Globo e a RGE passa a se chamar Editora Globo e nesse mesmo período Luiz Gê e Toninho Mendes, falecido em janeiro de 2017, fundam a Circo Editorial com as revistas CIRCO, trazendo autores diversos como Paulo Caruso e Laerte Coutinho, Chiclete com Banana de Angeli, Os Piratas do Tietê de Laerte, Geraldão de Glauco e Níquel Náusea de Fernando Gonsales, a editora durou até o ano de 1995. Em 1988 a revista Os Trapalhões passa a ser publicada pela Editora Abril, juntamente com Gugu e Sérgio Mallandro, outros apresentadores ganharam suas HQs nesse período como Xuxa pela Editora Globo e Angélica pela Bloch; o Troféu HQ Mix é lançado em 1989 criado para “divulgar, valorizar e premiar a produção de quadrinhos, humor gráficoanimação e assemelhados”, o estúdio Artecomix passa a ser conhecido como Art & Comics e inicia o trabalho de agenciar artistas brasileiros para o mercado internacional, os primeiros foram Marcelo Campos e Watson Portela, ainda nesse ano O Amigo da Onça é publicado no Semanário por Jal e Octávio Cariello e Christie Queiroz lança a tira Cabeça Oca para o jornal O Popular de Goiânia.


Depois de todo esse trajeto chegamos aos anos 90 e o impulso que as histórias em quadrinhos no Brasil precisavam acontece na forma da Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro cuja primeira edição foi em 1991, depois em 1993 ainda no Rio e a terceira em 1997, em Belo Horizonte e de lá para cá, até os dias de hoje, é um sucesso imenso com público de dezenas de milhares de pessoas, artistas internacionais convidados e todos os grandes profissionais nacionais, esse encontro de fãs e profissionais consolidou a importância do trabalho dos artistas de quadrinhos no país, mostra que temos mercado para os profissionais que lutam em manter essa forma de arte viva e atual. Na próxima e última parte da série de artigos veremos mais um pouco do crescimento do mercado nacional de quadrinhos, mais projetos e editoras atravessando a década de 90, chegando ao Século XXI e aos nossos tempos atuais. Vemo-nos em Quadrinhos Nacionais Origens - Parte III – De Volta Para o Futuro (ôpa! Acho que não poderei usar esse título....).


Fonte de Pesquisa: Wikipedia.

Por Giulianno de Lima Liberalli

Colaborador do Planeta Marvel/DC