Esta semana, pra
acompanhar o lançamento do filme O Homem de Aço lá
nos Estados Unidos, que estreia oficialmente por lá amanhã, a DC Comics começou
a publicação da série Superman Unchained, que reuniu dois dos mais
queridos e aclamados autores da editora, Scott Snyder e Jim Lee. O primeiro é o escritor cujo trabalho no
título Batman vem
sendo muito elogiado desde sua estréia, com o lançamento d’Os Novos 52, os títulos criados após o reboot de
todo o universo ficcional da editora. O segundo é um dos desenhistas de
quadrinhos de super-heróis mais conhecidos do mundo, responsável por fases de
grande sucesso dos X-Men, do Batman e
da Liga da Justiça. Portanto, a reunião da dupla faz
parte de uma estratégia de sucesso praticamente garantido, pelo menos num
primeiro momento. Mas será que eles conseguiram satisfazer as expectativas? É o
que analisarei abaixo.
“The Leap”
Roteiro de Scott Snyder
Desenhos de Jim Lee (história principal) e Dustin Nguyen (epílogo)
Arte-final de Scott Williams
Cores de Alex Sinclair (história principal) e John Kalisz (epílogo)
Desenhos de Jim Lee (história principal) e Dustin Nguyen (epílogo)
Arte-final de Scott Williams
Cores de Alex Sinclair (história principal) e John Kalisz (epílogo)
Falemos primeiro do
aspecto psicológico e moral. O autor sabe que está lidando com um dos heróis
mais antigos e respeitados dos quadrinhos, por isto há uma aura de reverência
na primeira aparição e atuação do Superman neste
número de estréia. Snyder faz questão de expôr com clareza – mas sem soar
esquemático e metódico – todas as principais peças que formam o caráter e a
importância do Homem de Aço no mundo que o adotou e que ele prometeu proteger.
A maneira como o escritor faz isto é dinâmica. Em uma longa e frenética cena de
ação no espaço o Snyder dá conta de contar um episódio da adolescência de Clark Kent; oferece ao leitor um insight sobre a
maneira como o herói encara suas experiências; cria um novo superpoder para
ele, que é uma evolução de outro que ele já possuía, consequência de uma
situação em que ele precisa pensar numa solução rápida e inesperada; e reforça
quão super ele é na maneira de lidar com o elemento humano ao mesmo tempo que
tem que se preocupar com toneladas de metal retorcido em rota de reentrada na
atmosfera da Terra, inteligências artificiais surtadas, e uma bomba nuclear em
potencial prestes a cair sobre uma base militar. É o tipo de cena de abertura
que não deixa dúvidas quanto ao nível de poder e equilíbrio físico, psicológico
e moral do herói.
Sim, estamos diante de um autor que também enxerga o
Superman não somente como um dos muitos super-heróis que povoam os quadrinhos,
mas como o maior modelo de todos eles, um superser que consegue coordenar
múltiplas ações ao mesmo tempo que se preocupa em fazer com que aqueles que ele
ajuda acreditem que ele será capaz de tirá-los de qualquer situação, por pior e
mais inescapável que ela pareça. E este é um dos pontos mais admiráveis da
interpretação que Snyder faz do Superman.
Porém o autor, usando seu protagonista como modelo,
também demonstra uma capacidade invejável de coordenação de subtramas e
exploração de seu elenco de coadjuvantes. Snyder reserva um espaço para cada um
deles.
Pra começar,
a conversa entre Clark Kent e Jimmy Olsen, que leva a outra entre Clark e Lois Lane –
com uma rápida e divertida participação de Perry White –
é ótima por dar conta de apresentar, sem soar enfadonho e forçado, o misto de
amizade, coleguismo e rivalidade entre eles, e a dinâmica de suas relações. É
um diálogo que flui com naturalidade. E neste ponto é interessante notar o
quanto Jim Lee solta
um pouco mais o traço, que no início da história se mostra mais tenso – o que é
apropriado, pois a sequência de abertura é bem tensa.
E já que
mencionei o trabalho de Lee, seus desenhos aqui estão bem melhores que seus
últimos trabalhos nas páginas do título da Liga da Justiça. Não há grandes inovações
narrativas, e seu traço continua evocando o melhor da década de 90, mas fica
longe de ser ruim ou desleixado.
Outro ponto que
merece destaque, e que é um dos temas recorrentes nos trabalhos de Scott
Snyder, é o papel da tecnologia em suas histórias. É ótima a ideia de mostrar Lois, toda desenvolta, montando a próxima edição do
Planeta Diário usando um programa de editoração
holográfica. E, claro, não dá pra ignorar o contraponto que isto gera ao
aparecer logo depois da página em que vemos Clark humildemente
digitando sua matéria em um singelo notebook, o que ainda serve ainda para
criar uma representação visual das personalidades deles: o espalhafato e a sofisticação
de Lois, e a simplicidade e praticidade de Clark.
Este capítulo inicial ainda introduz um mistério nas
primeiras páginas que é retomado na última, mas apenas para deixar o leitor
interessado em continuar acompanhando. Sem dúvida será um dos elementos mais
importantes deste primeiro arco, além de ser bem intrigante pela releitura que
ele faz de um momento marcante e terrível da história da humanidade. Fica a
curiosidade pra saber como Scott Snyder trabalhará isto dentro do Universo DC.
Sem dúvida
um ótimo ponto de entrada para um leitor que acabou de sair da sessão de O Homem de Aço e
está a fim de conferir o que anda acontecendo com ele nos quadrinhos. Cumpriu o
prometido, e com louvor.
Fonte: Nerd GeekFeelings
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