Como uma
figura idealizada por Jerry Siegel e Joe Shuster, Superman tornou-se parte da
nossa cultura duma forma que poderíamos até compará-lo com um mito, uma lenda
passada por gerações. Por estar tão presente no nosso imaginário, sua mitologia
é deveras rica e possibilita diversas interpretações ao longo de sua história.
Nesta penúltima parte do especial, foco em obras que encapsularam a importância
de Superman como parte do nosso pensamento popular e essas consequências em seu
mundo, onde as mais incríveis situações imaginárias podem surgir com o poder da
nossa imaginação. Afinal, a ficção e a fantasia são a verdadeira prova das
possibilidades ilimitadas das idealizações da humanidade.
O Que Aconteceu ao Homem de
Aço?
Como visto na primeira parte, após o fim de Crise nas
Infinitas Terras, a DC decidiu reformular o Superman. Devido a isso, a editora
decidiu encerrar os respectivos títulos do personagem: Superman e Action
Comics. Julius Schwartz, o editor responsável pelo homem de aço na época,
procurou dar um sentido especial a esse fim com uma história que realmente
colocasse os pingos nos “is”, queria que essas duas últimas edições fossem a
história definitiva sobre o fim do legado de Superman para DC pré-Crise.
Primeiramente, procurou Jerry Siegel, o criador do
personagem, pois nada mais justo dar a poder de fechar a história a quem lhe
deu vida. Por imprevistos e problemas legais, Siegel não pode fazê-lo, mesmo
que tivesse mostrado interesse. Quando pensava que sua ideia não poderia
vingar, num café da manhã, recorreu a ninguém menos como Alan Moore para
resolver seu problema. Após desabafar sobre a situação, para sua felicidade,
prontamente o britânico se ofereceu a escrever essa história à qualquer custo.
Enquanto John Byrne
limou boa parte dos elementos da Era de Prata que tornavam a mitologia do
Superman algo inconsistente aos seus olhos, Moore logo fez questão de
homenagear sua riqueza existente na intitulada “Whatever Happened to the Man of
Tomorrow?”, que aqui recebeu o título “O Que Aconteceu ao Homem de Aço”,
desperdiçando o significado do “Homem do Amanhã” que Moore se refere: o Übermensch que
Friedrich Nietzsche descrevera em Assim Falou
Zaratustra.
Aproveitando as
edições finais, o barbudo conta sobre os últimos dias do Superman, narrados
pela aposentada repórter Lois Elliot, a tão conhecida personagem pelo sobrenome
Lane que agora está casada com Jordan Elliot, levando uma vida calma, bem diferente de uma
década atrás nos seus movimentados dias no jornal Planeta Diário. Entrevistada
por um repórter do jornal em que trabalhara para um memorial em homenagem ao
super-herói, Lois revela o que levou o homem de aço a abandonar a humanidade.
Se Moore pode ser considerado um desconstrutor de
super-heróis graças os seus trabalhos em Miracleman e Watchmen, aqui encapsula
tudo que envolvia Superman afim de explorar a iconografias de seu universo.
Logo no início da primeira parte da história, acontece um estranho encontro
entre Superman e seu clone imperfeito Bizarro, onde o escritor ao aprofundar-se
no conflito existencial do segundo em ser um contraste eterno de seu
oponente, já realiza o primeiro momento de muitos outros emblemáticos e
tocantes que viriam. O choro no final ainda há o desfecho catártico desse
capítulo com o pesaroso choro do Superman diante do destino inevitável que
viria a encontrar.
Este destino, nada menos é do que seu fim, causado
aparentemente após uma série de ataques realizados por seus maiores inimigos
que se unem num complô para eliminar ele e tudo o que está ligado. Logo o homem
de aço reúne seus ente queridos para defendê-los dessa ameaça, mas como se
mostra ao longo da história, o destino realmente não está jogando a favor para
o antes invencível Superman, que se vê cada vez mais acuado. Quando a
derradeira hora chega para o homem de aço, Moore revela sua grande sacada para
justificar a veracidade dos eventos terríveis e porque finalmente o mundo do
personagem estava ruindo. Há uma força maior manipulando todos como fantoches,
se divertindo com o medo e sofrimento, esta “força” é nada menos que a mente
criativa de sua história. Alguém que não faz parte daquela realidade, mas é
capaz de interferir no rumo da vida daquele núcleo de personagens a seu bel
prazer pois para sua imaginação não possui limites, um verdadeiro escritor do destino. Para derrotá-lo, Superman acaba rompendo o seu juramento de
não matar, pelo peso na culpa de ter tirado uma vida, mesmo que de alguém cruel
e que não lhe oferecera alternativas, assim resolve desistir de sua sina como
Superman, abdicando de seus poderes e da capa vermelha. Brilhantemente, Moore
expõe a visão sobre a figura que este personagem possui como uma bússola moral
para humanidade, alguém para inspirar-nos a ser melhores, quando toma uma ação
que considera imoral, este rejeita seu papel no mundo e torna-se humano.
Abandonando o fardo de ser superior para caminhar entre nós.
Para o Homem Que Tem Tudo…
Ao oferecerem a possibilidade de ilustrar uma edição
do homem de aço para Dave Gibbons, com a liberdade dada pela DC, o artista
decidiu escolher seu amigo Alan Moore para escrever a história que iria
desenhar. O barbudo dessa vez realizou uma história no seguimento do “o que
aconteceria se…”, mostrando como seria a vida de Superman caso seu planeta não
tivesse sido explodido. Batman e seu ajudante Robin ao lado da Mulher-Maravilha
vão até a Fortaleza da Solidão para celebrar o aniversário do kryptoniano,ao
chegarem lá se deparam com ele em estado catatônico causada por uma estranha
planta alienígena.
O responsável por isso é o vilão Mongul, que se
revela aos amigos do Superman e que o fez por vingança. A planta chama-se
Clemência Negra e ela é uma parasita, necessita alimentar-se da aura de outros
seres vivos num processo de simbiose. Ao se “conectar”a alguma criatura, ela
lhe oferece a pior prisão possível, ao ler a mente do hospedeiro, cria uma
simulação do mais desejado sonho possível, bem escondido no seu subconsciente,
para este não ousar interromper seu processo de alimentação. Então, neste
momento, Superman acredita estar em Krypton, sendo conhecido apenas como
Kal-El, filho de Jor e Lara, tendo sua vida própria com trabalho, esposa e filhos.
Mas logo as complicações nessa realidade mental começam a surgir e seu sonho
torna-se um pesadelo.
Seu pai, Jor-El, vê-se amargurado pela vergonha que o
erro sobre sua previsão causara na sua carreira e deseja que o planeta volte a
ser como antes. Passando por diversas dificuldades, Krypton está longe de ser
uma utopia ideal, mas o conservadorismo no discurso de seu pai preocupa Kal.
Jor-El faz parte dum partido da Velha Krypton com viéis fascista, oprimindo
quem estiver contra, principalmente os militantes opositores a prisão
dimensional chamada Zona Fantasma, um exílio dado para os perigosos criminosos
do planeta, que é vista como uma forma dos kryptonianos expurgarem os
indesejados de sua sociedade. Por outro lado, os militantes respondem com violência,
criando uma situação tão instável no planeta quanto há anos atrás quando estava
a beira do colapso.
Mas latente na consciência de Kal-El ainda está a
percepção de estar vivendo uma ilusão que desconstrói seus próprios valores e
ideais, num momento tocante, Kal desabafa ao seu filho que este era um sonho e
rejeita essa realidade. Extremamente furioso, após libertar-se da planta, parte
contra Mongul com toda a sua força num confronto icônico por Gibbons ilustrar
perfeitamente a ira do herói. Por fim, o vilão acaba também sendo vítima da
Clemência Negra, trancado em suas próprias fantasias num desfecho memorável
desse filosófico conto de Alan Moore sobre o perigo e as complexidades das
idealizações.
Superman ao Infinito
Durante o
evento Crise Final,
Lois Lane sofreu uma tentativa de assassinato realizada por Libra, servo do
vilão da Darkseid, como sinal de fé para sociedade secreta de vilões.
Internada, apenas consegue continuar viva por causa de seu marido, o repórter
Clark Kent, graças a sua visão de calor, que mantém seu coração batendo através
duma massagem realizada por uma visão infravermelha. Em determinado momento, o
tempo pára e uma estranha mulher entra no quarto de hospital onde o casal se
encontrara, esta oferece uma salvação para sua esposa caso ele lhe ajude a
realizar um trabalho como Superman.
Revelando-se como Zillo Valla, ela pertence à
raça chamada de monitores, seres que habitam o espaço entre os cinquenta e dois
universos existentes na DC. Possuem a função não só de monitorá-los, mas também
de garantir que suas próprias continuidades não sejam interferidas por contato
entre eles. Como o multiverso corre risco pela influência da crise que Darkseid
trouxe a Terra 0 (o universo principal da editora e que nós tão bem conhecemos)
e sabendo duma possível conspiração entre os seus semelhantes, Valla resolveu
recrutar Superman e suas analogias de outros universos para impedir que todo o
multiverso acabe sofrendo uma catástrofe sem precedentes.
Grant Morrison aborda aqui o poder que mitos possuem, a
escolha de Superman para isso é bastante óbvia, afinal é o primeiro
super-herói, a ideia primordial. Suas analogias de realidades paralelas são
reflexos de suas diferentes roupagens e remodelações através de décadas, uma
ode à diversidade de sua mitologia, temos o seu completamente oposto ideológico
como o Ultraman, o Superman nazista que é praticamente o Übermensch de Nietzsche (que também se assemelha ao Superman soviético de Mark Millar), um personagem da
extinta Fawcett Comics que é o Capitão Marvel e o Capitão Átomo, um Superman
conceitual que Morrison o referencie ao Dr. Manhattan de Watchmen, um ser feito
de puro pensamento e energia, capaz de transcender sua consciência através de
todo o espaço-tempo contínuo. Ainda há o Limbo, um lugar perdido onde moram os
personagens esquecidos pelo tempo, pois o grande mote dessa história é mostrar
os malefícios que as pessoas causam a fantasia e a ficção, tanto
propositalmente quanto inconscientemente.
Fazendo parte do mesmo discurso que a minissérie principal
de Crise Final, Superman ao Infinito é sobre personagens ficcionais lutando
contra a imposição do nosso mundo. O vilão aqui é Dax Novu, o primeiro e mais
adorado monitor, que acabou sendo contaminado pelo contato com os universos e
tornou-se Mandrakk, um “vampiro” que
deseja sugar todas as histórias existentes. Banido por seu povo, mesmo no
exílio, conseguiu através de um dos seus seguidores um meio de desestabilizar o
multiverso para seu retorno. Como os monitores são analogias aos escritores e
até ao próprio público dos quadrinhos, por serem espectadores que acabam
interferindo nas histórias por sua obsessão pela continuidade e suas histórias.
Por serem tão obcecados acabam limitando os personagens e levando-os a caminhos
mais tristes ainda com a pressão por histórias mais violentas e sombrias, a
crise final de Morrison não refere-se apenas ao universo DC, e sim a indústria
de histórias em quadrinhos em
geral. No final, Superman enfrenta Mandrakk como um
emblemático combate entre ideia vs. autor, e assim como o careca declarou na
sua edição final em Homem-Animal, personagens ficcionais são ideias, algo
compartilhado por um consciente coletivo nosso que acaba transcendendo a
própria existência fora dos quadrinhos. Como diversos outros mitos,
super-heróis podem ser eternos, basta apenas querermos.
Fonte: Nerd Geek Feelings
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