Ao escrever um artigo sobre
quadrinhos, ou mesmo um roteiro de HQ, me esforço para fazê-lo de forma que
seja direcionado a quem NÃO LÊ quadrinhos. Quanto menos contato o leitor tiver
com os quadrinhos, mais se torna parte de meu público alvo. Por vezes, tento
(só tento) ver a obra com olhos de quem não está acostumado com este universo.
Mas esse direcionamento levou um tapa na cara quando assisti ao filme que
adaptava a obra de Alan Moore, Watchmen, para o cinema.
Com Watchmen
falhei miseravelmente. A minha “imparcialidade nerd” serviu apenas para me
dizer que foi divertido e tal. Só que foi uma adaptação tão correta, tão quadro
a quadro, que foi impossível esquecer a versão em quadrinhos que eu já havia
lido tantas vezes (e, com certeza, irei ler de novo).
Quando surgiram as notícias sobre a
editora DC Comics publicar um prólogo do universo de Watchmen, contando outras
histórias por outros autores, me senti desamparado no sentido de tentar
apreciar a obra sem a visão que tinha dos quadrinhos. Afinal, para um “civil”
era até legal a ideia de ver mais histórias daqueles personagens que foi
conhecer no filme, mesmo que tenha adquirido a obra original posteriormente.
O escritor
Alan Moore não estaria de forma alguma envolvido no projeto. Aliás, assumiu uma
posição de nojo em relação a toda a grande indústria de quadrinhos. Aliás, já
tinha seu ódio muito bem estabelecido quando adaptaram para o cinema os
personagens que criou. Em sua percepção, até a própria obra se tornou uma
espécie de filho bastardo que, apesar de bem sucedido, era mal visto por seu
próprio pai-criador. Seu ódio deve ser tão imenso que só o fato do nome dele
aparecer nesse artigo já seria suficiente para querer levantar um processo por
difamação ou algo do tipo. Talvez até jogar-me uma mandiga das brabas (Moore
tem um lado místico bem acentuado, dizendo-se mago, mas agora acabo de perder
toda a moral para ir lhe perguntar sobre isso).
As polêmicas
criadas em torno do lançamento das minisséries “Antes de Watchmen” tiveram
muito mais público do que as revistas em si. O lado negativo disso é que muita gente já as
via com certo preconceito. Afinal, era mexer com uma obra que era a principal
coluna de sustentação dos quadrinhos ditos mais adultos, nascidos no berço da
explosão de popularidade da arte nos anos 1980.
A editora Panini lança no Brasil
essa obra em forma de encadernados de cada uma das séries (cada qual dedicada a
um dos personagens). Estratégia menos carnavalesca do que a DC fez lá fora,
minimizando um pouco do preconceito que ainda havia nos corações
“alanmoorianos”. A primeira edição de encadernados é dedicada à série
(completa) do Coruja, que os civis talvez confundam com uma versão diferente de
Batman.
Confundam em
termos, afinal, o personagem de Watchmen tem sim um toque de Batman, apesar de
ser uma adaptação de outro super-herói, o Besouro Azul, que fazia parte dos
personagens da falida editora Charlton e que foram adquiridos pela DC nos anos
oitenta (daí que a responsabilidade do então amável Moore, na época, levou a
criação de Watchmen). O atrativo à parte fica por conta da parceria com o herói
Rorschach, que sempre rouba qualquer cena onde apareça, até na minissérie do “parceiro”.
Escrita por
J. Michael Straczynski, a história, apesar de acontecer antes do que é mostrado
em Watchmen, tem o mérito de não forçar as ligações com os acontecimentos
futuros. Há sim um desenvolvimento/aprofundamento tanto no que levou os
personagens a terem uma personalidade problemática (afinal, o universo de
Watchmen se passa em um mundo problemático) e até mesmo a alguns detalhes que
seriam vistos “mais tarde”. Mas todos esses detalhes estão ali de forma sutil,
de forma a atingir diferentemente três categorias de leitores: os que leram a
obra e assistiram ao filme, os que só assistiram ao filme e aqui (queria muito
ver dessa forma… não que me arrependa de acompanhar desde o início).
Uma coisa pode-se dizer que
Straczynski acertou. O clima sufocante da obra original de Moore está ali.
Aquele é o mundo de Watchmen, com certeza. E não o mundo dos outros personagens
mais populares da DC, como Batman ou Superman. Esse, inclusive, era o maior
temor dos fãs da obra original. Imagino como deve ter sido complicado trabalhar
em uma história em quadrinhos com fãs furiosos lá fora, o próprio autor
original soltando fogo pelas ventas (quando a ideia seria homenageá-lo – e
estou falando dos autores, não da editora) e do próprio clima negativo que há
na parte administrativa da própria DC. Talvez até esse negativismo todo tenha
pesado e se transferido para série, o que acabou se tornando sua qualidade.
Confesso que
estava distraído o suficiente para tomar um pequeno susto na arte. Curioso para
ver a série, acabei assimilando que os desenhos eram APENAS de Andy Kubert.
Quando notei que sua arte se parecia demais com a de seu pai, o saudoso Joe
Kubert, concluí que o filho havia se tornado uma espécie de clone do pai.
Não que sua
arte já não parecesse com a do velho Kubert, mas aqui estava praticamente
encarnando-o. Só depois de prestar mais atenção é que notei que o próprio Joe
Kubert (na época, ainda vivo) é quem arte finalizou o filho. E, com um mestre (literalmente
mestre de muitos profissionais dos quadrinhos atuais) envolvido, era natural
que a arte se tornasse irrepreensível.
Como bônus, ainda temos partes da
série Corsário Carmesim, quadrinhos lido no universo dos quadrinhos de
Watchmen. Escrita por Len Wein e desenhada por John Higgins, é tão sombria
quanto uma história em quadrinhos precise ser em um universo já sombrio.
No saldo
final, muita polêmica é bobagem. Preconceito mais ainda. Cheguei ao ponto de
sorrir em pensar que alguém que nunca teve contato com a obra em quadrinhos, um
“civil”, conseguirá se divertir muito como a série “Antes de Watchmen”. Foi um
sentimento tão agradável encontrar esses personagens em novas situações (ainda
que por demais indelicadas), que deu até vontade de ler, novamente, a
minissérie original. E, quem sabe, tentar ver com outros olhos a adaptação
cinematográfica. Quem sabe…
Fonte: Impulso HQ
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