Superman de John
Byrne Parte 2 – Universo compacto
Embora a DC tivesse decretado o fim dos universos
alternativos com a Crise nas Infinitas Terras, John Byrne trouxe a ideia de universo paralelo de
volta para poder explicar as incongruências na mitologia do Superman que restaram por conta da
reformulação, consequência de algumas mudanças fundamentais nas bases do
personagem. No universo DC da época, Superman era o último Kryptoniano, então
não havia Supergirl, criminosos da Zona Fantasma, Kripto ou outros
superanimais. Além disso, Superman também nunca havia sido Superboy, o que
causava graves problemas para a origem de uma das superequipes mais queridas
pelos leitores da DC na época.
A
Legião do Superman
Uma das melhores criações surgidas como “spin offs”
do Superman (talvez a melhor) foi, sem dúvida, a Legião dos Super Heróis.
Originalmente, a equipe era um grupo de super-heróis adolescentes do futuro
que, inspirando-se nas ações do Superboy, decidiram usar seus poderes para
salvar o mundo em seu tempo. Os membros da Legião voltaram no tempo para
conhecer seu ídolo e com isso iniciou-se uma tradição de histórias do Superboy
no futuro com a Legião.
Mas, na
reformulação do Byrne, Clark só havia se revelado ao mundo quando adulto, sendo
que, nesta nova versão, só existiu um Superman, nunca um Superboy. Aliás, não
havia mais nem Superboy, nem Supergirl, nem Krypto, nem nenhum outro
sobrevivente do planeta natal do herói. Então, como é que a Legião dos
Super-heróis poderia ainda existir tendo se inspirado num Superboy?
John Byrne
teve que resolver este problema apelando para uma solução que, de certa forma,
contrariava justamente aquilo que a DC tentou resolver com Crise nas Infinitas
Terras: universos paralelos.
Na
interpretação do Byrne, a criação da Legião dos super-heróis foi uma
manipulação do vilão Senhor do Tempo, que criou um universo alternativo
compacto a partir de informações históricas imprecisas do século XXX para onde
a Legião era “desviada” toda vez que viajava no tempo. Enquanto achavam que
estavam indo para o passado real, estavam, na verdade, sendo levados para esse
universo limitado.
A história
toda é longa para ser contada aqui, mas o que importa é que, obviamente, o
Superboy do mundo compacto e o Superman do John Byrne acabam se encontrando, e
com o jovem manipulado pelo Senhor do Tempo, eles acabam se enfrentando, e
eventualmente ajudando-se mutuamente e junto com a Legião descobrem a conspiração
toda.
É difícil
tirar um único momento deste tema em particular, especialmente para mim; a luta
entre Superman e Superboy certamente está entre elas, assim como a explicação
para a existência dele e da Legião, e é claro não dá para deixar de citar a
sequência deste arco de histórias, nas histórias da própria Legião, onde
Superboy se sacrifica para manter o seu mundo vivo.
A
Supermoça do Superman
A Saga da Supermoça, publicada aqui na revista
Superpowers 17, foi outro grande momento do Superman do Byrne. Neste arco de
histórias, o autor revisita o conceito de “Supergirl” de um modo completamente
diferente. Como uma das “exigências” do autor para as histórias era que
Superman fosse o último filho de Krypton (e único vivo), sua Supermoça não era
a clássica versão “prima do Superman que por coincidência também tinha um pai
que por coincidência também resolveu fazer uma nave e salvar sua filha antes de
Krypton morrer”, e sim algo completamente diferente.
Nesta nova
versão, a história da Supermoça está atrelada ao mundo compacto criado para
explicar a influência do Superboy na criação da Legião dos Super-Heróis. Após o
sacrifício do Superboy, o mundo compacto continuou existindo e, neste mundo,
Lex Luthor era um cientista “do bem”, que sem querer acaba libertando 3
criminosos da Zona Fantasma, General Zod, Faora e Quex-ul. Sem nenhum Superboy
para impedir os vilões, estes causaram destruição e dominaram o mundo. Tentando
resolver a cagada que fez, Lex Luthor, usando material genético de Lana Lang,
que havia perecido durante os ataques dos vilões, e criou uma “Supermoça” feita
de uma substância chamada “protomatéria”**. Esta Supermoça era uma forma de
vida artificial que não tinha exatamente as mesmas habilidades do Superboy:
apesar de ser superforte e poder voar, podia também ficar invisível, mudar de forma
e possuía poderes telecinéticos.
Esta
Supermoça se encontrou com Superman ao ser enviada por Lex Luthor para o nosso
mundo a fim de encontrar o Superman e pedir ajuda para enfrentar os criminosos.
No entanto, em sua viagem, ela perde a memória e por um tempo passa a viver com
os Kents.
Mas esta
história também é longa, e é melhor eu resumir aqui com sem dúvida um grande
momento desta fase: no arco de histórias que aqui ficou conhecida como “vidas
paralelas se encontram no Infinito”, Superman retorna ao mundo compacto para
conhecer um universo completamente aniquilado pelos 3 criminosos Kriptonianos,
e só a Supermoça e o Superman, com a ajuda de Luthor e humanos sobreviventes
(não por acaso versões de heróis como Oliver Queen, Bruce Wayne e Hal Jordan, que
neste universo não haviam se tornado super-heróis) é que puderam salvar o pouco
que resta daquele universo.
O juiz Superman
De todos os momentos citados, acho que este eu
poderia tranquilamente colocar como O grande momento do Superman do Byrne, por
um único – e suficiente – motivo: ele mexe com o cerne daquilo que se tornou
parte fundamental do cânone do personagem, ou seja, o fato de que Superman não
mata*.
Mas o
Superman do John Byrne também se viu numa situação sem precedentes: os 3
criminosos kriptonianos (Zod, Faora e Quex-ul), que tinham sido libertados no
mundo compacto, destruíram aquele universo INTEIRO. Não sobrou nada, nem
ninguém. Apenas Superman e os 3 vilões. Isso deixou Superman com uma batata
quente na mãos. Os Kriptonianos do universo compacto eram MAIS poderosos que o
Superman. Se eles destruíram o universo compacto inteiro, imagina o quanto de
destruição que não fariam se conseguissem, por exemplo romper os limites dos universos
e chegar até o nosso? Deixá-los vivos acabava sendo perigoso demais.
A solução
que Superman tomou, a contragosto de si mesmo, foi deixa-los morrer no mundo
compacto. uma vez que não havia mais ninguém naquele universo para julgar os
atos dos criminosos, coube à Kal-El o papel de juiz, júri e executor.
Mas antes
que os mais exaltados (se é que alguém já não soubesse que isso aconteceu)
comecem a xingar, saibam que esse não foi um evento gratuito. Teve, de fato,
impacto profundo no Superman, que ficou com um peso na consciência tão grande
que acabou se exilando no espaço para pensar no que ia fazer dali para diante.
Bem, acredito que este texto cubra os maiores – e
melhores – momentos do Superman do John Byrne. Se eu esqueci de algo, citem nos
comentários. Desculpem pela extensão do texto, que acabei tendo que dividir em duas partes, mas acho que
isso é um bom indicativo da importância desta reformulação para o cânone do
personagem. Se você leu até aqui, parabéns, você é persistente (ou se interessa
muito pelo Super).
Notas:
*Me refiro,
é claro, à visão que ficou no imaginário popular. Originalmente, matar não era
tanto um problema para o personagem.
**Não
pergunte. Ciência de histórias em quadrinhos…
0 Comentários