No ano de
1972, em Superman #247, o escritor Elliot S. Maggin levantou uma das questões
mais importantes na história dos quadrinhos de super-heróis: “Deve Existir Um
Superman?”. Nessa edição, o homem de aço é questionado pelos autoritários
Guardiões do Universo (os seres responsáveis pela Tropa dos Lanternas Verdes),
se suas boas ações seriam realmente benéficas para o futuro da humanidade. Com
um messias alienígena resolvendo todos os nossos problemas, como a nossa
espécie resolveria suas próprias crises e assim evoluiria na necessidade?
Passado tantos e tantos anos depois, essa pergunta de Maggin tornou-se
incrivelmente ainda mais complexa e pertinente. Por isso, é nesse tema que
se enquadram as obras dessa quarta parte do especial.
Qual é o
Significado da Verdade, da Justiça e do Modo de Vida Americano?
Como dito nas últimas duas partes, a chegada do novo
século representou uma preocupação a DC sobre os ideais que seu mais
conhecido super-herói pregava. Curioso que mesmo sendo o personagem mais
conhecido da editora, seus títulos não conseguiam altas vendas e sua aceitação
era abalada com facilidade por causa do questionamento dos leitores devido às
suas atitudes perante o combate ao crime. As consequências de Watchmen
refletiram durante os anos 80 e suas influências estenderam até os anos 90,
onde os quadrinhos de superheróis estão cada vez mais sombrios e violentos.
Enquanto isso, os britânicos Warren Ellis, Garth Ennis e Mark Millar escreviam
sobre um mundo cínico e desesperado onde seus superheróis caminham
deliberadamente entre o certo e o errado.
Neste
cenário, Joe Kelly resolveu pôr as cartas na mesa e discutir a situação em que Superman se
encontrava na aclamada história chamada Qual é o Significado da Verdade, da Justiça e do Modo de Vida
Americano?, publicada em sua fase na Action Comics. A trama
trata sobre o surgimento da Elite, uma equipe formada por autoproclamados
“superheróis” britânicos que se afirmam como os juízes, júri e executores do
mundo, referência clara a Authority de Warren Ellis. Por eliminarem as
ameaças da forma mais drástica possível e subjugarem as leis, Superman parte
contra estes anti-heróis para detê-los e ensiná-los os ideais em que acredita
que os verdadeiros heróis deveriam seguir.
Infelizmente,
com cada vez mais vilões sendo assassinados, o povo começa a duvidar sobre o
velho modo americano dos superheróis de resolverem esses problemas, e começam a
apoiar as ações da Elite. Sem muitas opções, Superman resolve assumir a defesa
de seus ideais sozinho, buscando provar para o mundo que estão errados. Numa
batalha acirrada, consegue desmoralizar a Elite e ensinar que cada vida é
importante, e mesmo que as pessoas possam ainda entrar em desacordo com suas
ações, a humanidade não merece seguir um discurso de ódio e fúria, e sim de
compaixão e fé por si mesmos. Compreender esses valores é o que precisam pelo
bem de seu futuro.
É Um Pássaro…
Imagine que você é um escritor. Sua perspectiva do
mundo é bastante focada em suas convivências e ao seu cotidiano, pois a
fantasia não faz tanto sentido para tua lógica realista. Então lhe oferecem o
trabalho de escrever o personagem mais utópico possível para sua imaginação. E
qual seria ele? Superman, obviamente, um ser invencível, de éticas e morais
absolutas. Um legítimo messias entre os homens. O choque é enorme, você o
rejeita rapidamente, mas quando questionado sobre se realmente conhece o
personagem, sua consciência entra em crise e se vê na condição de começar a
aprofundar-se em seus próprios dilemas para então entender o que Superman
representa em sua vida.
Isso foi o
que ocorreu com Steven T. Seagle, autor que resolveu revelar todo esse seu
processo de aceitação para este trabalho na graphic novel É Um Pássaro…, um belo relato sobre como os elementos
que compõem o universo das aventuras do Superman estão refletidos na nossa
civilização. Seagle descarrega suas frustrações, medos e preocupações ao longo
da história, e principalmente o que lhe levou a odiar o personagem. Conhecemos
o desespero com o mal de Huntington,
doença hereditária que lhe preocupa bastante, pois foi a causa da morte de sua
sua avó e assombra sua família desde então. Isso lhe faz sentir totalmente
vulnerável e incapacitado, sendo o oposto do invencível homem de aço.
Com sua
mente desequilibrada pela situação, o escritor nos leva para uma viagem através
de seus pensamentos sobre diversos aspectos do super-herói. Parte da
incoerência de sua identidade secreta e a relação como alienígena sendo um
estranho na Terra. Explora também o Super-homem de Niestzche, um homem além das
virtudes e valores, assim como a questão misantrópica da Fortaleza da Solidão e
o fascismo velado em seu papel como protetor da humanidade, visto por Steven,
por impôr um estilo de vida para quem é inferior a ele. Em relutantes reflexões
sobre como Superman se comportaria diante das situações em que se envolve, o
escritor percebe que desconstruí-lo apenas tornaria o personagem fraco e
infeliz, porque em seus feitos inacreditáveis e vitórias sob as nossas
dificuldades é o que ainda lhe torna especial após todos os seus anos de
existência. Seagle compreende que a verdadeira força do Superman presente no
nosso imaginário reside na esperança em cada um de nós de poder realizar o
impossível.
O Reino de
Amanhã
Em meio a
violência excessiva e temas sombrios que tomavam os quadrinhos dos anos 90, o
escritor Mark Waid e o ilustrador Alex Ross se uniram para buscar os velhos
valores dos super-heróis e mostrar o porque que ainda não podem ser esquecidos
nos tempos atuais. Nesse âmbito, deve-se dizer que a formação da dupla não
nega, sendo Waid fã declarado de Superman e Ross que já havia homenageado o
glorioso passado dos heróis da Casa de Ideias emMarvels,
lendária minissérie escrita por Kurt Busiek.
A trama se passa num futuro distópico onde Superman
abandonou sua capa e deixou a humanidade nas mãos duma nova geração de
super-heróis egoístas e despreocupados com as consequências de suas ações. O
motivo de sua desistência foi a perda de fé pelos seres humanos após a morte de
seus amigos, familiares e o amor de sua vida, e também por discordar do clamor
público para que aceite os novos tempos que essa geração trazia.
Numa desastrosa batalha contra o, já inofensivo,
Parasita liderada por Magog, o vanguardista dessa nova era dos super-heróis e
responsável pelo auto-exílio do kryptoniano, os meta humanos acabaram
acidentalmente destruindo boa parte do Kansas e tornando o lugar uma zona
altamente radioativa. Sendo essa a última gota dessa geração super-heróica
despreparada, a ONU começa a se desesperar em busca duma solução, já que
perderam o controle do mundo na mãos deles, mas Mulher-Maravilha parte para o
Smallville, o atual refúgio do homem de aço, com o objetivo de convencê-lo
voltar para luta e tomar as rédeas da situação.
No papel de espectador desses eventos está o pastor Norman
McCay, este herdou as previsões apocalípticas que Wesley Dodds, o Sandman
original, teve dias antes de sua morte. Norman é escolhido pela figura chamada
Espectro para lhe ajudar a fazer a escolha mais proveitosa para expurgar o mal
e trazer o bem maior. Ao longo da história, a dupla visita diversos eventos
correlacionados às suas visões. Nesse futuro, os super-heróis se tornaram parte
da cultura da sociedade, há um mercado em volta desse segmento com os mais variados
produtos, como um restaurante temático que marca presença na história. E também
se tornam uma tendência, os jovens meta humanos saem para baladas e se
confraternizam travestidos com uniformes coloridos e extravagantes. As pinturas
de Ross delineiam bem um tom saudosista, traduzindo a forte sensação de estar
presenciando estes eventos de teor bíblico que passa diante dos olhos de McCay.
Ao retornar
de seu exílio, Kal-El (pois Superman agora abandonou sua identidade terrestre)
encara esse nova geração com pulso firme, se tornando, teoricamente, o líder
mundial do planeta e dos super-heróis. Como primeira medida, tentou convencer
todos a se juntarem a sua causa, quem se opor aos seus ideais, encararia a
força bruta até que mudasse de ideia. Se algum meta humano for praticamente
incorrigível, é trancafiado numa prisão de segurança máxima onde suas atitudes
serão modeladas, até que fosse considerado seguro o bastante de conviver entre
seus semelhantes. De certa formas, este Superman assume uma postura que lembra
aquela que Mark Millar traria ao personagem quase uma década depois em Entre a Foice e o Martelo,
aliás, a motivação para o retorno do herói é outro elemento que o escocês
também buscaria anos depois em Guerra Civil na Marvel.
Apresentando as
mudanças e deteriorações de velhas figuras do universo DC, além dum Superman em
estado de negação, temos primeiramente um Batman já idoso e flagelado. Este
ressurge com sua velha obsessão por controle, protegendo a cidade de Gotham com
um exército de robôs enquanto vigia tudo como um verdadeiro Grande Irmão.
Também membro da trindade da editora, Diana perdeu o título de representante da
Ilha das Amazonas e a permissão de visitá-la, sem honra, se encontra em pleno
desespero na busca duma batalha por algo que faça valer sua vida novamente. Os
clássicos vilões se reúnem ainda como uma sociedade, mas não são mais tão
ativos e perigosos quanto eram, parecendo viverem num clube de negócios entre
velhos amigos manipulando as coisas por trás da cortina.
Essas trágicas deturpações é a forma de Waid procurar
mostrar o perigo que as complexidades do mundo real podem exercer dentro do
campo fantasioso dos quadrinhos. Até o mais puro dos super-heróis, o Capitão
Marvel, ou melhor dizendo, seu alter-ego que é o garoto Billy Batson, acaba
sendo influenciado por essa realidade repleta de crises e problemas. No
desfecho fica claro o que levou a humanidade a chegar neste estado foi a falta
de crença nela mesma, a perca de ideais a se espelharem e a vontade de lutar com
as próprias mãos. O símbolo do Superman é uma força vital nesse mundo, mas suas
ações como o seu protetor tornaram a humanidade dependente e
incapacitada. Mas respondendo claramente a questão levantada por Elliot S.
Maggin, Mark Waid buscou provar a importância do homem do amanhã, sendo alguém
que não deve ficar preso por nossos desejos e dúvidas, mas sim uma figura maior
que esses valores, capaz de inspirar e guiar a civilização a caminhar com os
seus próprios passos para alcançar sua própria grandeza.
Por fim,
para o cenário da época, a reflexão era outra. Se há um universo onde a
velocidade da luz possa ser superada, em que a viagem entre dimensões paralelas
é possível e o espaço-tempo contínuo pode ser compreendido e manipulado. Porque
então arruinar este lugar onde tudo é possível com mesquinharias e cinismo do
mundo real, ao invés de assumir uma suspensão de descrença e aceitar toda a
beleza e extensão da imaginação humana?
Fonte: Nerd Geek Feelings
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