A simbologia marcava o Doutor
Destino da mesma forma que sua máscara e capuz evocavam a imagem da morte.
Porém, para o próprio personagem, a palavra que mais o assombrava era
perfeccionismo. Palavra muitas vezes fatal para qualquer plano de vilão, pois é
aí que reside a falha onde o herói pode se safar.
Mas, o perfeccionismo, esse poderoso
inimigo de Victor Von Doom, sempre o acompanhou das mais variadas formas. Desde
a egocêntrica até a mais dramática. Ser o segundo em inteligência não era
aceitável e Reed Richards se tornava um obstáculo quase que existencial nesse
sentido. Porém, a maior marca da crueldade em conquistar o distante
perfeccionismo estava mais próxima (e mais física) dele do que se imaginava.
Da época em
que era um mero estudante (nunca, nunca, nunca mencionem a palavra “mero” perto
de Destino), Von Doom sofreu um acidente na explosão de um maquinário que ele
mesmo criou. Até os dias de hoje, não se sabe a real extensão dos danos físicos
que essa explosão lhe causou (na verdade, há apenas algumas interpretações
muito particulares dos autores que tiveram a oportunidade de trabalhar com o
personagem).
A narrativa
da história diz que seu rosto ficou horrivelmente deformado. “Horrivelmente” a
ponto de nunca se ter coragem de mostrar tal deformidade ao leitor. Até mesmo
os heróis que testemunhavam seu rosto por trás da máscara, até o mais corajoso
deles, ficava chocado (por vezes, demonstrava até piedade) diante da dramática
situação de seu antagonista.
Independente das interpretações de
leitores, autores ou dos próprios personagens, cabe lembrar que, como dito no
início, a simbologia marcava o vilão. E podemos afirmar que marcou o seu rosto
também. Tendo objetivos e metodologias tão perfeccionistas, era natural que
beleza física também fosse um quesito importante para que fizesse o vilão,
digamos, se sentir bem.
Dessa forma,
há narrativas que interpretam o que aconteceu com seu rosto… em um mero
ferimento (já avisei para não citarem a palavra “mero”?). Uma cicatriz. Sim,
pois Victor Von Doom, mestre do (inalcançável) perfeccionismo, com um rosto que
consideraria belo e perfeito, jamais poderia admitir que existisse uma cicatriz
nele. Tal afronta, mesmo que fosse ele mesmo penalizado, mereceria ser
trancafiado, escondido do mundo por toda a existência do vilão. Algo que o fez
de forma que se tornou notória através de sua máscara de ferro.
Mesmo imaginando-se que a sequela
física de Destino seja uma simples (não para ele) cicatriz, este é um segredo
guardado dos leitores por décadas, desde sua criação. Talvez uma das mitologias
mais sagradas do Universo Marvel. Tanto sim que, mesmo diante de várias
interpretações e reformulações, ainda é um elemento que continua em sua aura de
mistério e, de certo ponto de vista, quase um elemento de horror dada a carga
dramática que evoca.
O personagem
foi criado meio que de supetão, tanto como a maioria dos personagens da Marvel
Comics. Mas, a explicação (ou falta dela) do porque de sua máscara de ferro, e
do que não se podia ver que ela escondia, foi um ponto positivo na construção
do vilão. Prova de que ninguém, até os dias de hoje, pôde chegar perto o
suficiente de Destino para tentar reverter o que tanto marca sua vida
perfeccionista. Prova de que sua fúria pode se estender muito além de seu
próprio reino.
Destino odeia. Tendo na outra ponta
de seu ódio Reed Richards. O mesmo Reed Richards que, apesar do incidente que
deu poderes a ele e os demais integrantes do Quarteto Fantástico, tem o
perfeccionismo de uma vida em família ao lado de seus integrantes. E o que é
mais aterrorizante para destino: uma família simples, com problemas que toda
família enfrenta… e supera (marca registrada da Marvel para aproximar seus
personagens de ficção da realidade dos leitores).
A
simplicidade da vida de Richards incomoda Destino muito mais do que uma suposta
superioridade no quesito gênio. Mesmo porque, mesmo que seja monarca de um
reino e mesmo que fosse mais além, tornando o mundo a sua volta perfeito, ainda
assim, a prova que o faz lembrar que nunca conquistará o perfeccionismo está no
símbolo de seu fracasso (em uma vida onde não deveria haver nenhum). Está
marcado para sempre, e trancafiado junto com sua alma por uma barreira de ferro
em seu próprio rosto.
Por Marcos Dark
Fonte: Impulso HQ
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