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domingo, 13 de novembro de 2016

Colaboradores do Planeta: Tempos estranhos - uma análise sobre Dr. Estranho, o filme

Pelo Sagrado Vishanti! Nosso colaborador Giulianno de Lima Liberalli retorna das dimensões místicas, após uma viagem ao Himalaia para nos contar como foi sua experiência ao assistir ao filme Dr. Estranho, além das origens do herói nas HQs.



Sempre tive em mente heróis da Marvel ou da DC que gerariam grandes filmes com potencial para cativarem o público, conhecedor das suas aventuras ou não, mas com carisma suficiente para ganharem produções dignas das suas histórias. Do lado da Marvel eu apostava em personagens como Thor e Homem de Ferro e pela DC o Shazam, Homem-Borracha e Flash, todos eles possuem características que, aproveitadas corretamente, dariam bons resultados. A Marvel está correspondendo, acertou com os que eu já citei e se consolidando como o estúdio dos grandes heróis mostrando um belo trabalho com seus personagens menos conhecidos, como o Homem-Formiga, por exemplo, só que um da minha lista superou minhas expectativas como fã: Doutor Estranho.

Curiosamente a Marvel segue nas telas uma linha semelhante aos seus primórdios nas HQs, trouxe personagens marcantes e famosos como Homem-Aranha, Hulk, Capitão América, Homem de Ferro e Thor firmando seus nomes para passar a experimentar, com mais segurança, outros menos chamativos e que certamente ela não teria iniciado seus projetos com eles. Fomos apresentados a ilustres desconhecidos do público em geral como Pantera Negra, Homem-Formiga e Guardiões da Galáxia, um acerto fenomenal, mas entramos em um novo território deixando para trás a ciência e os aprimoramentos genéticos, entramos no território dos místicos. Doutor Estranho abriu as portas da magia para o Universo Marvel no cinema.

Particularmente acho a origem do Doutor Estranho uma das melhores já criadas pela Marvel. Uma constante nos heróis é que todos devem passar por perdas e provações para se tornarem o que são, a típica jornada do herói, aonde ele deixa para trás seu antigo EU e se transforma em algo novo, destemido, superando suas deficiências em prol do bem maior, porém a origem de Estranho tem muito mais de nós do que de vários heróis. Capitão América foi transformado por um soro aliado a experimentos científicos, Homem-Aranha picado por um inseto modificado pela radiação, Thor já nasceu um deus e o Homem de Ferro aprimorou um talento que já possuía como inventor para superar a morte, mas e o arrogante neurocirurgião Stephen Strange? Seu talento nada tinha de místico, suas habilidades como médico vieram de anos de estudo e dedicação que, quando atingiram o auge, se perderam na ganância e na ambição de usar suas capacidades apenas para se promover, mesmo salvando vidas no processo. Até ser vítima de um grave acidente de carro que destruiu suas ferramentas de trabalho, as mãos talentosas, firmes e precisas cujos nervos e ligamentos foram danificados além de qualquer reparo perdendo sua utilidade para sempre.

Buscando a cura com os melhores médicos ao redor do mundo, tudo aquilo que construiu
foi pouco a pouco desmoronando até a ruína financeira completa, sem mais nenhuma esperança de conseguir ajuda com a ciência e a medicina ouve falar de um lugar místico no distante Nepal onde milagres podem ser operados por meio da magia, nesse ponto vemos que o homem perde seus últimos restos de orgulho e parte para buscar ajuda aonde sempre ridicularizou e nunca depositou o mínimo de esperança e fé, nas artes místicas. Rejeitado a princípio pelas suas origens materiais, o mestre da medicina humana abraça o árduo treinamento de desaprender tudo o que sabe para ingressar em um novo mundo, descobrindo que somos uma pequena parte de um grande multiverso ligado pela mágica e pelo misticismo. Assim o Dr. Stephen Strange se tornou o Doutor Estranho.

Criado em 1963 por Stan Lee e Steve Dikto, o personagem surgiu de uma inspiração curiosa do mestre Lee, quando buscava ideias para um novo personagem para a revista Strange Tales se lembrou de um programa de rádio que ouvia na juventude dos anos 40 sobre as aventuras de um mágico chamado Chandu e o quanto suas histórias o deixavam empolgado, baseou-se nisso para criar uma das características mais marcantes do personagem: os encantamentos recitados de maneira quase teatral gerando frases famosas como “Mãos de Oshtur, Hordas de Hoggoth atendam ao meu chamado!” ou “Pelo Sagrado Vishanti, eu ordeno...”, mas o grande atrativo das histórias do Mago Supremo era a arte de Dikto com seu visual colorido e psicodélico, com certeza bastante inspirado na arte pop da década de 60 por nomes como Andy Warhol e Roy Lichenstein, fazendo
alusões a cores fortes e vibrantes, afastando padrões escuros e sem vida. Detalhe esse bastante homenageado nas sequências da produção onde Estranho tem seus primeiros contatos com outras dimensões de existência, a arte de Dikto foi belamente reproduzida em várias partes do filme, um tributo a esse artista tão talentoso que criou o visual do Homem-Aranha e da grande maioria dos seus vilões clássicos como Octopus e o Duende Verde.

Um dos maiores trunfos da produção é ter construído uma história que, mesmo contendo muito da chamada “Fórmula Marvel” (claro, é um personagem deles) usada nos outros filmes, ela tem esse ar de novidade por se tratar da introdução do lado místico no universo cinematográfico preparando a chegada do aguardado Guerra Infinita, onde Estranho e vários heróis estarão unidos contra Thanos, pode ter certeza que vai ser para quebrar bilheterias. O aspecto místico é explorado usando lógica e argumentos palpáveis, fazendo com que a plateia tenha uma base para compreender o que acontece no santuário e nos treinamentos, não é simplesmente chegar e dizer “somos mágicos e pronto, tudo funciona assim”, o misticismo possui base e conteúdo para ser assimilado, não é algo que aparece do nada como em um truque de ilusionismo, até por que não é ilusão, é outro nível de realidade que sempre esteve unido à nossa existência.


A contratação de Benedict Cumberbatch para o papel de Doutor Estranho foi um dos fatores para o sucesso do filme, assim como Downey Jr se tornou a figura de Tony Stark, Cumberbatch se adaptou muito bem ao papel de Stephen Strange com o talento que os fãs já conhecem da série Sherlock da BBC, ele interpretou o gênio Alan Turing em O Jogo da Imitação e deu nova face ao vilão Khan de Star Trek, o ator britânico realiza uma interpretação cativante como o arrogante médico e o aspirante a herói, mesmo o famoso humor das produções da Marvel não diminui o resultado da produção, rola até uma piadinha com o nome de Shamballa e o famoso Manto de Levitação também protagoniza cenas ótimas no filme.


Além do visual do filme, o restante do elenco também é muito bom. Apesar de ter sido uma decisão criticada por muitos, colocar Tilda Swinton como Anciã se provou uma ótima ideia, quem conhece seus trabalhos como a feiticeira branca de Nárnia ou como o anjo Gabriel de Constantine sabe que a atriz tem talento para papéis dessa natureza e, como foi falado anteriormente, o fato de ser Ancião ou Anciã independe de sexo, é um fator espiritual determinado pela pureza da alma, não por ser homem ou mulher simplesmente. Madds Mikkelsen, da série sobre o psicopata canibal Hannibal Lecter, é o vilão Kaecilius, aprendiz renegado da Anciã tem um plano sinistro para trazer um mal ainda maior para a Terra, infelizmente muito se fala sobre a ausência de um grande vilão nas produções Marvel, desde Loki é um espaço muito difícil de ser preenchido, porém o espaço no enredo é que não aproveita muitos deles, aqui é o caso, Mikkelsen é um grande ator e se tivesse mais tempo de tela para explorar o personagem seria um dos melhores. Chiwetel Ejiofor interpreta Mordo, também um aprendiz em grau mais avançado da Anciã tem um papel importante na produção, curiosamente é o primeiro vilão que Estranho encontra nos quadrinhos, mas é um aliado no filme, estranhei no início e durante os acontecimentos muita coisa vai fazendo sentido, dando sinais para o destino do personagem e a sua importância na continuação. Benedict Wong interpreta... Wong, fiel aliado de Strange e responsável por alguns dos momentos mais engraçados do filme é alvo do senso de humor do Doutor Estranho, é ator britânico e esteve ao lado de Chiwetel Ejiofor no recente sucesso Perdido em Marte. Completando o elenco principal temos Rachel McAdams como a médica Christine Palmer, colega de trabalho e ex-namorada de Stephen Strange, é a única que fica do lado de Strange buscando apoio para sua condição, o nome da sua personagem é o mesmo da Enfermeira da Noite, que já cuidou de outros heróis como o Demolidor, se no futuro terá alguma mudança na continuação não se sabe. O filme vem sendo apontado por muitos como o novo Homem de Ferro da Marvel, concordo em grande parte com a afirmação porque quando o filme do Vingador Blindado estreou trouxe uma enxurrada de perspectivas positivas para o futuro da Marvel no cinema e Doutor Estranho amplia mais ainda esse campo com a chegada do lado mágico da Casa das Ideias nas telas, a ótima repercussão nas bilheterias prova isso. E, óbvio, temos as famosas cenas pós-créditos que dão ganchos excelentes para a continuação de Doutor Estranho e para Guerra Infinita, falando nisso uma das Joias do Infinito está no filme, assistam para saber qual, aqui não estou dando spoilers da trama. E o grande vilão do Estranho, Dormammu, também está presente, mas dar detalhes sobre ele entrega bastante coisa, basta dizer que é mais uma homenagem ao tom psicodélico das histórias do Mago Supremo. Concluindo, é mais um sucesso para a lista da Marvel indicando que o futuro dos heróis no cinema ainda é muito promissor.


E se eu dissesse que a realidade que você conhece é apenas uma de muitas?” - Anciã

Por Giulianno de Lima Liberalli
Colaborador do Planeta Marvel/DC