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domingo, 2 de abril de 2017

Colaboradores do Planeta: A Violência nas HQs e no Cinema – Logan Deixa sua Marca

O filme Deadpool surpreendeu nas bilheterias, especialmente por ser destinado ao público adulto. E com a excelente recepção de Logan, nosso colaborador Giulianno de Lima Liberalli achou que seria uma boa hora de refletir sobre, o que parece ser uma tendência mundial nos filmes de heróis. - Roger

O mito do super-herói vem das lendas e aventuras da antiguidade, do homem transpondo barreiras, se tornando herói quase ao custo de sua vida e esse caminho sempre foi marcado pela dor, pela perda e pela violência, principalmente se formos buscar as fontes nas sagas dos deuses e semideuses da mitologia grega tendo Hércules como um dos melhores exemplos e um dos principais elementos que formam essas narrativas são os embates entre os heróis e seus antagonistas, sempre carregando a marca da violência, que também se reflete no mundo dos heróis das HQs.

Desde que Logan, a despedida de Hugh Jackman do papel que consagrou sua carreira, chegou aos cinemas atingindo o status de melhor filme da franquia do mutante mais querido e barra-pesada dos quadrinhos, muito se falou sobre a violência usada na produção e ficou claro desde que o primeiro trailer saiu que este seria um filme visceral, sangrento e fiel à descrição mais famosa sobre Wolverine: “Sou melhor no que faço, mas o que eu faço melhor não é nada agradável.”, a frase dita pelo próprio personagem pela primeira vez na icônica mini “Eu, Wolverine”, de Chris Claremont e Frank Miller, ficou gravada na mente dos leitores fãs do mutante canadense para sempre, se duvida pergunte a qualquer fã do personagem e ele vai ter essa frase na ponta da língua.

Tendo como inspiração a HQ “Velho Logan”, escrita por Mark Millar e desenhada por Steve McNiven, o filme retrata um futuro em que os X-Men estão mortos, não só eles como a grande população mutante mostrada nos filmes anteriores da franquia estão reduzidos a quase nada e, em décadas, não é registrado o nascimento de um mutante sequer no planeta. Cabe a um envelhecido Wolverine sobreviver cuidando de um decrépito Professor X, cuja velhice representa um risco para o mundo, como se sabe o cérebro é um dos órgãos que fica mais frágil e instável quando envelhecemos, transporte isso para a imagem de Charles Xavier, o telepata mais poderoso que existe para se ter uma ideia do risco em que ele pode se tornar. Para quem leu a HQ e viu o filme entendeu que muita coisa foi adaptada para a produção, já que os quadrinhos falam de todo o Universo Marvel devastado após um ataque sincronizado de todos os supervilões, como ficaram os heróis depois disso e o filme tem seu foco somente no universo mutante e em Wolverine, centrando a narrativa no velho mutante.
Temos o filme mais “real” das franquias X-Men e Wolverine até hoje desde o sucesso de X-Men 2, o tema central das produções era o preconceito, o medo da humanidade em aceitar a existência dos mutantes e que eles eram o próximo passo evolutivo da raça humana, eles foram alvo de experiências e perseguições, tratados como aberrações e não como maravilhas, em Logan vemos o quanto esse medo levou a humanidade a tratar os mutantes como cobaias cuja única serventia era para serem estudados, dominados e tornados instrumentos para a eterna ambição humana. Hugh Jackman se despede da franquia colocando toda a força e dedicação na atuação que esse trabalho merece, o diretor James Mangold tirou do ator a sua melhor interpretação para o Wolverine até hoje, dá para sentir que foi trabalhado para marcar a despedida com chave-de-ouro. Nada assim digno de um Oscar de melhor ator, se bem que para mim o Oscar não pesa em nada, mas mereceu um emocionante reconhecimento por parte dos fãs que sempre criticaram por não verem o Wolverine com toda sua grandeza nas telas, percebe-se a dor de estar perdendo a capacidade de regeneração, dos poderes estarem cobrando o preço por anos e anos de utilização consumindo suas forças, uma atuação bastante convincente, dá para sentir a empatia de ver um guerreiro que ainda teima em permanecer de pé, que ainda quer lutar, quando seu corpo pede para parar e se entregar. Patrick Stewart, que sempre admirei como ator e personalidade, mostra por que ele foi a melhor escolha para o Professor X, sua atuação também emociona, não dá para ficar indiferente com o quanto ele mostra que a idade bateu com força e o desespero por estar perdendo a guerra contra a velhice e a decrepitude mesmo possuindo o cérebro mais poderoso do planeta não podendo fazer nada para impedir o fim que se aproxima, a química que os dois mostraram juntos ao longo dos filmes desde o primeiro X-Men em 2000 atinge seu ápice dezessete anos depois nesse capítulo final para seus personagens. Fora a sensacional revelação que é a atriz mirim Dafne Keen como X-23, ela passa a maior parte do filme em silêncio, usando de gestos e expressões para atuar e aí está a força do talento promissor que ela mostrou, se apresentando como uma das maiores promessas artísticas que veremos em alguns anos no cinema, desde que não se corrompa pela indústria e caia na banalidade de papéis que só farão desmerecer sua capacidade, suas cenas de luta são sensacionais e é melhor ainda contracenando com Jackman. Enfim, o filme é muito, muito bom.

Chegamos à outra característica altamente enfatizada e presente na produção: a natureza violenta de Wolverine, dessa vez mostrada como nunca foi em nenhum dos filmes anteriores, até mesmo em X-Men 2 que nos deu um gosto de sua selvageria ou em X-Men: Apocalipse, quando ele chacina um grupo de guardas do Projeto Arma X em uma participação bem pequena do baixinho canadense. Um fenômeno interessante dos quadrinhos acabou se repetindo nos filmes mutantes, tirando Deadpool, que foi o quanto a presença de Wolverine pesa nas histórias praticamente carregando a saga dos filmes nas costas, o carcaju está com tudo mesmo. Só que os fãs do personagem nunca tiveram a chance de ver os estragos que ele pode fazer na carne dos inimigos, até Logan estrear, gostaria de deixar claro que não sou simpatizante da violência ainda mais por se tratar de filmes de super-heróis cuja fatia de público mais grossa é justamente composta pelos jovens, adolescentes e produções como Homem-Aranha, Vingadores e Guardiões da Galáxia provaram que nem sempre precisamos ver sangue voando ou membros serem arrancados para gostarmos da aventura nas telas, só que Wolverine é um personagem calcado na violência, tudo nele e na sua história gira em torno disso, afinal seu corpo é uma arma quase perfeita, pode se regenerar e possui garras feitas de um metal que corta qualquer coisa, se transportarem isso para o mundo real esses poderes nas mãos de um homicida fariam um estrago imenso, quase incontrolável. Então essa carga de violência foi importante para o filme? Acredito que sim, senão o espectador não teria visto o verdadeiro Wolverine que conhecemos em sagas como “Velho Logan” e “Eu, Wolverine” agir de verdade, para o roteiro ter mais profundidade foi necessário, afinal estamos vendo o personagem cansado, irritado, com os nervos à flor da pele, pronto para explodir e podemos ver a intensidade dessa explosão quando ele demonstra que o tempo do diálogo, infelizmente, ficou para trás, em seus tempos de equipe ao lado dos companheiros mutantes e agora ele bate de frente com o mundo e com qualquer um, sem piedade.
Mas como eu disse no inicio do texto, a violência presente no filme nos faz perceber que
temos reações diferentes ao lermos quadrinhos violentos e assistirmos produções violentas, possivelmente tem pessoas que leram a fase do Justiceiro de Garth Ennis e Steve Dillon, uma das mais sangrentas do personagem, e ficaram meio incomodadas com Justiceiro Em Zona de Guerra, último filme com Ray Stevenson no papel de Frank Castle, devido a não terem poupado a truculência do Justiceiro para as telas, mostrando que ele não pensa duas vezes em mutilar e arrebentar friamente um bandido para fazer sua justiça, só que essa é a natureza do vigilante nas HQs e como ele temos Wolverine, Deadpool, Elektra, Kick-Ass, Vigilante, Rorschach, Comediante e vários outros. Em uma escala um pouco menor temos o Batman, que já teve histórias mais carregadas na violência como “Cavaleiro das Trevas”, a maturidade e o clima sombrio que Frank Miller deu para o universo de Batman nessa obra foi um dos fatores que o colocaram novamente em evidência nas HQs, tirando o personagem do meio comum dos outros heróis para o mundo dos vigilantes, mais real, mais doloroso e a sua popularidade tornou a aumentar chamando a atenção do público mais maduro para as HQs, a trilogia do personagem pelas mãos de Christopher Nolan soube dosar a violência com a trama para fazer uma saga de filmes excelentes que não precisaram ser escuros ou gore visualmente para retratar o Batman, Coringa, Duas-Caras e Gotham City de maneira convincente e empolgante. Nos quadrinhos temos os selos que tratam de temas adultos como Marvel Knights e Vertigo, sagas que ficaram populares por serem destinadas aos leitores maiores de idade e por terem cenas bastante violentas como Preacher e Escalpo, as aventuras do pastor Jesse Custer foram adaptadas para uma série pela emissora AMC e não poupou sangue, palavrões e situações que não seriam nada “santas” para a vida de um pastor, uma prova de que muitos escritores não poupam nem mesmo a religiosidade da violência para contar uma boa história, a série de TV foi bem sucedida por não deixar de lado as características dos quadrinhos, até o Cara-de-Cu estava lá bem fiel a HQ, Escalpo também está prestes a ganhar adaptação, outro exemplo de que os fãs não perdoam a ausência da essência do personagem em produções desse tipo foi Constantine, o mago inglês ganhou uma série que só durou uma temporada altamente criticada por ignorar os quadrinhos da Vertigo que o popularizaram e não retratar com mais fidelidade o mundo de magia negra e terror em que ele vive, mesmo tendo sido muito bem interpretado por Matt Ryan, lavando a alma dos fãs depois de Constatine com Keanu Reeves.

Demolidor, um dos vigilantes mais famosos da Marvel, é um personagem que vive em um ambiente urbano bastante violento e perdeu entes queridos como o pai para esse universo aprendendo que nem sempre é com a justiça dos tribunais que se punem os criminosos. Em “Born Again” podemos ver até onde o Demolidor e o Rei do Crime podem ser violentos em momentos extremos, quando a Netflix lançou a série do Homem Sem Medo o fator da violência não ficou de fora, pelo contrário, ela foi usada diversas vezes sem economia para mostrar que o mundo é um lugar em que recursos assim, inevitavelmente, são meios usados para atingir alguns fins e a adaptação se tornou um sucesso que gerou outros como Luke Cage e Jessica Jones, frutos desse mesmo mundo violento. Então a tão criticada violência foi um dos fatores determinantes para o sucesso dessas produções?
Sim, se analisarmos que para ser algo palpável, empolgante para o espectador tinham que ser o mais próximo possível de serem histórias com um pé na realidade, mesmo se tratando de histórias de super-heróis. Para tirar a dúvida é só ver como foi recebido o filme do Demolidor com Ben Affleck, Jennifer Garner e Collin Farrell pelos fãs. A película, além de não ser tão fiel ao estilo dos quadrinhos, pecou deixando de lado muitas das características que marcaram os quadrinhos do Demolidor, principalmente a fase de Frank Miller considerada uma das melhores do personagem, seu relacionamento com Elektra e os embates com o Mercenário marcaram época, Miller nos trouxe histórias dramáticas e violentas sem precisar ser explícito nos quadrinhos, pois não faziam parte de um selo adulto, só que essa visão fez falta nesse filme deixando-o raso e pouco empolgante, o Mercenário interpretado por Collin Farrell não tinha nem a metade do carisma do personagem nos quadrinhos.

Outra obra que se passa em um mundo escuro e violento recebeu um filme para o cinema que, mesmo com as alterações feitas no material original, é uma adaptação bastante fiel ao visual original, aqui me refiro a Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons. A HQ que é um clássico dos quadrinhos modernos tem uma história sólida e irrepreensível, no entanto já inicia com uma sequência altamente violenta que é o assassinato do Comediante provando que aquele que vive pela espada morrerá pela espada, ou seja, o Comediante era violento desde o seus primórdios e, mesmo assim, ele não deixa de ser um dos melhores personagens da HQ e peça central na trama, Rorschach é a imagem do vigilante que admitiu para si que não existem meios de se buscar a justiça se não forem violentos, duas passagens ficaram marcadas na minha memória na primeira vez em que li a história: quando ele conta como Kovacs se torna Rorschach para o psiquiatra na cadeia e quando ele é resgatado na prisão em meio a um banho de sangue, gostei da violência? Não. Tornou a história mais impactante e emocionante? Sim. Como acontece com Logan, quem assistiu ao filme Watchmen viu um material que buscou respeitar o conceito original dos personagens nas telas. Até mesmo um ser superior como o Dr. Manhattan tem seus momentos violentos que incomodam o espectador se imaginar uma criatura com poder assim no mundo real, mas sem esses fatores tanto a HQ como o filme seriam uma aventura de heróis típica do material recheado de censura e inocência das décadas de 60 e 70.
Também temos momentos em que a violência retratada nas telas não casa bem com a imagem do personagem como o recente Superman dos cinemas interpretado por Henry Cavill, o Homem de Aço sempre representou para mim o herói que luta pelo bem sem ter que recorrer à violência para intimidar seus antagonistas e acho que o clima das recentes produções Homem de Aço e Batman vs Superman não usou desse prisma, minha opinião deve ter muito a ver com o fato de que considero Superman – O Filme o melhor já feito para o personagem, o recurso de violência no filme é quase zero e não deixa de ser um ótimo filme. Acredito que Frank Miller teve essa mesma imagem em mente quando concebeu o Superman em “Cavaleiro das Trevas”: o eterno escoteiro que faz de tudo para evitar derramamento de sangue, os momentos em que ele enfrenta tropas militares destruindo somente armas e equipamentos, nem tocando nos soldados ou mesmo enfrentando um Batman que não pensa duas vezes em enfiar sua bota na cara dele arrancando sangue do kryptoniano. Nem sempre uma produção precisa usar de violência para tornar seus efeitos melhores ou deixar o filme mais atrativo, recentemente uma matéria foi divulgada pelo site The Wrap (http://www.thewrap.com/dc-films-r-rated-superhero-movie/) relatando que a Warner, motivada pelos sucessos de Deadpool e Logan, está querendo fazer filmes de classificação mais adulta para os heróis da DC Comics baseada em pesquisas que apontam que o público está aprovando o maior teor sexual e violento presente nessas produções, só que vemos isso com bom olhos para personagens como Watchmen, Constantine e Batman, este último teve cenas mais violentas liberadas na versão estendida de Batman vs Superman, o que acabou agradando mais aos fãs que declararam ser esta a versão que deveria ter sido exibida nos cinemas. O recente Esquadrão Suicida funcionou como um teste para a Warner ao usar personagens não muito conhecidos do grande público como Pistoleiro e Magia junto com Arlequina e Coringa para ver como um filme com personagens da DC mais violentos se sairia, mesmo com um resultado confuso e um Coringa abaixo da média foi um sucesso de bilheteria, tanto que filmes solo da Arlequina e do Pistoleiro estão sendo cogitados, mas dessa vez pensando em uma classificação mais adulta para explorar essa nova tendência que vem se formando atualmente. Porém o que muita gente que repercutiu a matéria na rede não citou foi que o estúdio pensa nesse tipo de produção usando os personagens que se encaixam nesses perfis, não visualizo filmes do Flash, Lanterna Verde, Liga da Justiça ou a esperança de sucesso de Mulher Maravilha sendo feitos com teor sexual e violento para o público adulto, com classificação acima de 18 anos, não condiz de forma alguma com a essência desses personagens nos quadrinhos, o recente trailer de Liga da Justiça me parece sinalizar que a aura pesada de Batman vs Superman não deverá se repetir nesse filme, focando mais na aventura, Batman tem até comentários bem-humorados como quando Barry pergunta para ele o seu superpoder e simplesmente responde: “Sou rico”.

Um caso que chamou muita a atenção foi na série The Walking Dead inspirada nos quadrinhos de mesmo nome de Robert Kirkland, quando a sequência da morte de Glenn foi retratada fielmente aos quadrinhos mostrando sua cabeça arrebentada por Lucille, o bastão de beisebol de Negan. Tanto os quadrinhos como a série são sangrentos e violentos, no entanto essa parte que chocou os leitores nos quadrinhos deixou a audiência ainda mais estarrecida ao ponto da emissora ser questionada quanto à necessidade de uso tão explícito da violência, o que alguns viram como exagero, outros viram como fidelidade a obra original, quem teria razão? Como fã dos quadrinhos e da série devo dizer que tive sentimentos ambíguos, por um lado fiquei chocado com a realidade dos efeitos da cena e por outro me questionei se foi realmente necessário, mas se fosse com outro personagem qualquer o impacto teria sido o mesmo? O fator emocional também conta muito em momentos assim e creio que os produtores tiveram muito tempo de discussão para decidirem transpor tão literalmente os quadrinhos para a tela da TV.

Não se pode negar que Logan levou os filmes de heróis para outro patamar confirmando que a audiência buscava produtos como Deadpool entre as produções nas telas, no entanto o uso da violência não deveria ser de forma banal apenas para agradar aqueles que gostam de ver sangue jorrando ou membros amputados, pois os super-heróis tem a imagem de ser a esperança de um futuro melhor nos seus mundos e não de serem os responsáveis por chacinas descabidas, enquanto esse artífice for usado de maneira inteligente não precisaremos nos preocupar.

Por Giulianno de Lima Liberalli
Colaborador do Planeta Marvel/DC