Com o reboot da DC,
Homem-Animal ganhou uma nova chance entre os diversos lançamentos d’Os Novos
52. Agora sob o comando do escritor canadense Jeff Lemire, um dos promissores quadrinistas
recentes em ascensão na editora ao lado de Scott Snyder. Além da sua série Sweet Tooth (publicada atualmente no Brasil pela
Panini) na Vertigo, Lemire já havia trabalhado em títulos mensais antes, como
algumas histórias do Eléktron e uma fase bem respeitável com o Superboy, que
acabou firmando seu futuro como um belo contador de histórias no universo DC.
Com o objetivo claro de reinserir o herói de volta ao mundo dos super-heróis,
mesmo não tão coloridos e espalhafatosos como antes, e ainda manter elementos
que consagraram o título no passado.
Conheça os Bakers
Família é o
tema central nesse novo título, claro que Lemire insere elementos típicos dos
quadrinhos de super-heróis para movimentar sua história, mas no fim, tudo se
trata sobre os Bakers no seu primeiro arco,”The Hunt” (A
Caçada). De inicio, encontramos Buddy questionando sua vida menos ativa como
super-herói graças às preocupações constantes de sua esposa, Ellen. Seu filho
Cliff se inspira no seu passado enquanto sua filha caçula Maxine parece nutrir
uma grande afeição com animais que condiz ironicamente com seu pai. Ao ser
avisado por Cliff que alguém havia tomado pacientes dum hospital como reféns,
Buddy rapidamente parte para lá como Homem-Animal e logo descobre que o
sequestrado era apenas um pai desesperado por ter perdido sua filha para o
câncer. Após um diálogo sobre perdas e suas consequências, o homem se torna
ainda mais agressivo e Buddy toma uma atitude, nocauteia o sujeito com
agilidade. Por ter acessado a Teia da Vida para tal feito, ele começa a
sangrar pelos olhos e, então, desmaia. Logo após, mostra-se plenamente saudável
e perplexo pelo o que aconteceu, ao retornar para casa, mal sabendo que as
coisas tendem a piorar. Um pesadelo profético o toma pela noite enquanto dorme,
Buddy se visualiza num local desconhecido repleto de plantações parecidas com
árvores ao seu redor, Cliff surge e lhe avisa que Maxine representa perigo
a todos e então seus órgãos caem, revelando que teve sua barriga
estraçalhada por alguém, provavelmente pela menina, que logo surge em seguida. E o teor de
bizarrice aumenta quando Buddy mergulha num lago de sangue a pedido de Maxine,
com uma expressão estranhamente inocente em seu rosto e vestindo um uniforme
inspirado no mesmo de seu pai. Então três criaturas surgem dignas de serem
frutos doentios da mente dum biólogo a lá Frankenstein. Elas apenas pronunciam
um aviso que atormentará a vida de Buddy Baker daqui em diante, a ameaça da Podridão.
Os Caçadores surgem
Durante a
madrugada, Maxine aparece com os animais mortos da vizinhança, agora
ressuscitados como mortos-vivos, o que revela sua ligação com a mesma fonte dos
poderes de seu pai. Buddy então pega Maxine e a leva para uma viagem em prol de
descobrir mais sobre sua ligação, eles vão direto para a fonte do Vermelho, a
força responsável por suas habilidades. Lá são recebidos por uma espécie de
conselho animal, composto por antigos avatares do Vermelho, o título de
representante e maior guerreiro dessa força. É revelado que sua filha é a nova
avatar e foi apenas foi escolhido como seu guardião e progenitor, seus poderes
são do Vermelho e toda a história dos alienígenas era apenas uma ilusão mais
plausível criada para justificar o surgimento de suas habilidades, o que é bom
já que isso apenas funcionava na lógica nonsense da Era de Prata e da fase do
Grant Morrison. O trio de criaturas do pesadelo de Buddy são os Caçadores, antigos avatares do Vermelho que foram
corrompidos pela Podridão, outra das três forças fundamentais no equilíbrio da
natureza de nosso mundo, o terceiro na balança é o Verde, representado pelo Monstro do Pântano. A Podridão sempre esteve
em atrito com o Vermelho e o Verde, mas agora pretende perturbar essa ordem,
acabando com o Verde e corrompendo o Vermelho. Sua influência é basicamente
como um câncer que se alastra pela Terra, plantações morrem e seres de carne se
tornam uma espécie de zumbis monstruosos. Os Caçadores estão no encalço de
Maxine para conseguir uma grande vitória para eles se a corrompê-la, resta a
Buddy garantir sua proteção, enquanto ela aprende sobre seus poderes com seu
mentor felino, Sr. Meias, para grande guerra que estar por vir contra
a Podridão. Até a Liga da Justiça Dark, grupo formado por
super-heróis sobrenaturais, surge nesse rolo para ilustrar o quão importante o
desenrolar desses eventos serão.
Orgulho do papai
Jeff Lemire
é um escritor bem versátil, mas encontra bastante afinidade com temas como
“família” e o obscuro, seu Homem-Animal é uma versão bastante inspirada na fase
do Jamie Delano, só que com grandes toques de fantasia. A forma como compõe os
elementos do Vermelho mostra todo esse lado fantástico, o desenhista Travel Foreman consegue
conceber com bastante proeza as proporções bizarras das criações de Lemire ao
longo dos capítulos. Foreman se expressa bem em sua arte com traços finos e
soltos, onde acerta ao criar o tom macabro que também está presente, as feições
tortas ou exageradas das faces dos personagens desenhados por ele dá uma
sensação onírica como distorções da realidade, algo fundamental pelas
monstruosidades biológicas que surgem. Steve Pugh, antigo artista que havia colaborado
com Jamie Delano em sua fase com o personagem, substitui ele com sua arte ainda
mais sombria e visceral, acentuando o tom de terror e desespero que a história
vai ganhando.
“Que viagem, mano.”
Nas onze
primeiras edições de Homem-Animal, Lemire mantém um clima de filme de estrada,
já que os Bakers estão atravessando o país em constante fuga da ameaça dos
Caçadores, enquanto tentam encontrar o Alec Holland, o
Monstro do Pântano, para se aliarem a ele e conseguirem vantagem na batalha
contra a Podridão. O escritor que foi bastante influenciado por títulos
sombrios e de terror, aqui cria um refinado jogo de suspense como os bons
filmes de serial killers fazem, mesmo nos momentos de tranquilidade há a
inquietação de que as coisas sempre tendem a piorar por esse
perigo constante em suas vidas. O fato dos Caçadores habitarem corpos
humanos, constrói ainda mais a sensação de insegurança, onde qualquer um pode
ser suspeito, e no campo das referências, eles
se manifestam duma forma muito semelhante ao alienígena simbionte do filme “O Enigma do Outro Mundo”, de John Carpenter. Fora
os sonhos apocalípticos que ganham traços mais perturbadores, com Maxine sendo
peça fundamental nos futuros acontecimentos. Mas para o título seguir ainda
como uma HQ de super-herói, mesmo sendo o mais bizarro, por exemplo, há boas
sequências de ação, principalmente quando o roteirista recupera uma das
características mais marcantes da fase de Delano, as habilidades animais se
manifestando no corpo do herói, dando-o formas mais animalescas e deixando-o
conceitualmente assustador nos combates. Ainda há uma pequena jornada lisérgica
de Buddy por dentro do Vermelho no segundo arco, “Extinction is Forever” (Extinção é Para Sempre),
após seu corpo ser corrompido pelos caçadores e agora sua consciência tenta
conseguir uma nova forma para ressuscitar e retornar a luta, mais ou menos como
rolou em “Carne e Sangue” do Delano. Com bastante toque de aventura e descoberta,
nesta passagem ele conhece uma figura chamada de Pastor, uma espécie
de fauno, seu guia e um dos guardiões do local.
O Pastor é o meu
senhor… ou algo parecido
Também há
espaço para mais brincadeiras metalinguísticas, além daquela entrevista
inicial, Jeff Lemire faz uma menção a Grant Morrison. Quando assustado com o
quão maluca sua vida se tornou, Buddy lembra de que uma vez sonhou com seu
criador, um magrelo escocês, que lhe dizia ter controle sobre sua vida, pois
ela era apenas uma história em quadrinhos. Referência
clara a última edição de Morrison, onde como já disse anteriormente, ele
consegue o feito de se despedir pessoalmente do próprio personagem. Em outro
momento, na sexta edição, somos apresentados ao filme que Buddy Baker estrelou, ”Tights” (pela Panini, ficou “Colantes”). Com
sutileza, esse capítulo mostra do que se trata o tal longa-metragem, um drama
existencialista sobre ser um super-herói através da história de Chas Grant, um
aposentado combatente do crime que não consegue encontrar satisfação em seu
atual e convencional trabalho, resolvendo voltar a vestir seu colante de Trovão Vermelho novamente.
É um conto familiar sobre auto-sacrifício, que poderia soar deslocado no meio
da história dos Bakers, mas se correlaciona com a atual situação de Buddy. Jean Paul Leon, o artista responsável por esse
breve segmento da história, compõe painéis detalhados e bem comportados,
lembrando muito David Mazzucchelli. Vale citar que Jeff Lemire é
formado em cinema e em seus trabalhos deixa nítido suas influências vindas da
sétima arte. Por isso, já considero esta com uma das minhas passagens favoritas
do Homem-Animal, fica o anseio de conferir mais da carreira cinematográfica do
personagem.
Espero ver isso no Sundance algum dia
Após um
grande embate entre Buddy, num novo e melhor corpo, e seu antigo possuído por
um dos Caçadores, a família Baker finalmente encontra algum momento de paz e
segurança,assim como finalmente conhecem Alec Holland, que estava junto com
Abby Arcane (outra figura importante neste cenário, mas pretendo comentar
melhor sobre ela na segunda parte). Na edição anual do Homem-Animal, aprendemos
mais sobre a aliança do Vermelho com o Verde, esta que atravessa gerações. Para
terminar, então Buddy e Holland traçam um plano para adentrarem nos domínios da
Podridão e conseguirem derrotar o seu respectivo avatar, Anton Arcane, clássico arqui-inimigo do Monstro do
Pântano e “tio” de Abby. Assim preparando terreno para o terceiro ato (ou seria
arco?) de sua grande história: Rotworld (ou Mundo
Podre).
BROS
Com altas doses de bizarrices e sem amarras para
ousar cada vez mais, não deixando de lado a relação forte de Buddy e sua
família, Jeff Lemire conseguiu manter a originalidade peculiar do título. Mais
uma futura clássica fase para se colocar na conta do personagem.
Fonte: Nerd GeekFeelings
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