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A influência da vida real nas histórias dos heróis Marvel

Com pouco mais de 50 anos de história, a Marvel Comics se consagrou e se tornou o que é hoje por diversos motivos, fosse por seus personagens ou qualidade das histórias, porém, um fator de seu sucesso que é sempre muito lembrado, é o conceito de ter colocado personagens fictícios e fantasiosos em um mundo real, e com problemas reais. Abaixo segue uma lista falando sobre algumas das muitas influências reais para as histórias de alguns dos principais heróis da Marvel, e já que estamos falando de “realidade”, nada mais apropriado do que utilizar obras de Alex Ross para ilustrar o post.
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O CAPITÃO AMÉRICA E A 2ª GUERRA
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Steve Rogers era um soldado franzino que serve de cobaia para um ousado experimento do exército dos EUA durante a 2ª Guerra Mundial, que visava dar origem a um exército de “super soldados”, mais fortes, ágeis e resistentes do que os humanos comuns, porém, apesar do experimento ser um sucesso, o cientista responsável pelo experimento, e único que sabia a fórmula, é assassinado por um espião nazista, fazendo de Steve Rogers o único daquilo que deveria ser uma leva. O personagem apareceu pela primeira vez em “Captain America Comics #1 (março de 1941)”, pela dupla Jack Kirby e Joe Simon, e bom, as referências do mundo real aqui talvez sejam as mais óbvias, afinal, a capa da edição já trazia o herói do título desferindo um belo murro em Adolf Hitler, já mostrando ao que vinha, para combater, mesmo que de forma fictícia, a ameaça nazista que assolava o mundo. Reza a lenda que a criação do Capitão América, teria sido encomendada pelo próprio exército dos EUA como forma de incentivar as tropas aliadas nos campos de batalha. Nos anos 70, os escândalos envolvendo o 37º presidente dos EUA, Richard Nixon, tiveram influência nas histórias do personagem, com o herói questionando e enfrentando seu próprio país, provando que representava a liberdade dos povos, e não um governo qualquer, mas isso já é outra história.
O QUARTETO FANTÁSTICO E A CORRIDA ESPACIAL
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Criados por Stan Lee e Jack Kirby no início dos anos 60, aparecendo pela primeira vez em “Fantastic Four #1 (novembro de1961)” para ser mais exato, o Quarteto Fantástico tem origem quando 4 indivíduos, o cientista Reed Richards, o piloto Ben Grimm, e os jovens irmãos Susan e Johnny Storm participam de uma viagem ao espaço a bordo de um foguete experimental projetado por Reed, lá, eles são bombardeados por raios cósmicos, fazem um pouso forçado e descobrem que adquiriram super poderes. A origem é simples e direta, mas, é um reflexo dos tempos em que foi escrita, em meio a Guerra Fria e tem inspiração, em especial, na chamada corrida espacial que era disputada na época pelos EUA e pela URSS. A primeira aparição do Quarteto se deu poucos meses após o astronauta soviético Iuri Gagarin ter se tornado o primeiro homem a ir ao espaço, e quase uma década antes de Neil Armstrong se tornar o primeiro homem a pisar na lua.
O HULK E A BOMBA ATÔMICA
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Em “The Incredible Hulk #1 (maio de 1962)”, vemos como o cientista Bruce Banner se transforma na colossal criatura conhecida como Hulk após ser atingido pela explosão de uma “bomba gama” no Novo México, em um teste desta nova arma realizado pelo exército americano. As referências aí são claras, ao relatar o teste de uma arma de destruição em massa no Novo México encabeçado pelo exército dos EUA, Stan Lee e Jack Kirby fizeram alusão direta ao desenvolvimento da bomba atômica, o chamado “Projeto Manhattan”, e ao teste que realmente havia sido realizado no Novo México em 1945. O Projeto Manhattan surgiu em agosto de 1942 e foi extinto em agosto de 1947. Indo um pouco além das origens, e falando do personagem em si, o Hulk foi fortemente inspirado em dois clássicos da literatura, “Frankenstein” e “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde”.
O HOMEM-ARANHA E O CIDADÃO COMUM
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Em “Amazing Fantasy #15 (agosto de 1962)”, por Stan Lee e Steve Ditko, surgiu aquele que se tornaria o principal e mais icônico personagem da Marvel, o Homem-Aranha. Na história, o tímido e pacato adolescente Peter Parker é picado por uma aranha radioativa e ganha seus incríveis poderes. Ao longo da história, ele aprende de maneira trágica ao perder seu tio Ben que “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”, assim, aprendendo que deveria usar seus dons para ajudar aos outros, e não apenas em benefício próprio. O personagem foi um sucesso por diversos motivos, mas o principal era que, Peter Parker era um cara comum, açguém com quem os leitores, em especial os jovens, podiam se identificar, um adolescente tímido e solitário que enfrentava problemas comuns, como dever de casa, valentões na escola, relacionamentos amorosos complicados, problemas financeiros etc, ao mesmo tempo em que cumpria com suas responsabilidades como Homem-Aranha enfrentando bandidos comuns e super vilões. Ao longo dos anos, estes “problemas” reais começaram a ir além dos problemas do personagem título, abrangendo problemas da sociedade em geral como a luta pelos direitos das minorias que tantas vezes foi representada nas histórias em que Peter Parker ainda estudava na fictícia Universidade Empire State. Outro problema abrangido nas histórias do personagem, foi o das drogas, à pedido do próprio governo dos EUA, Stan Lee escreveu uma história do Aranha que tocava no assunto, o que foi fundamental para dar fim ao “Comics Code Autority”, que basicamente era um selo que decidia se cada história em quadrinho era apropriada ou não para chegar as bancas. A questão das drogas foi ainda mais aprofundada através do personagem Harry Osborn, melhor amigo e colega de apartamento de Peter Parker, além de ser filho de Norman Osborn/Duende Verde, que se torna viciado em LSD, e assim, em uma época repleta de tabus, Stan Lee ousou ao mostrar aos jovens leitores, os males que as drogas podiam causar.
O HOMEM DE FERRO E A AMEAÇA COMUNISTA
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As histórias do Homem de Ferro certamente não eram as únicas onde a Guerra Fria, e no caso, a ameaça comunista eram usadas como referência, mas com certeza era onde essas referências tinham mais evidência e presença. Em “Tales of Suspense #39 (março de 1963)” somos apresentados ao inventor Tony Stark, que fora contratado pelo exército dos EUA para dar suporte no desenvolvimento de uma nova arma na guerra do Vietnã, lá ele é atingido pela explosão de uma mina terrestre, e os fragmentos desta mina ficam alojados em seu peito. Stark é capturado pelos inimigos vietnamitas para que conceda a eles a arma que ele estava originalmente desenvolvendo para os americanos. Percebendo que estaria morto em breve devido aos estilhaços em seu peito, Stark usa o seu “projeto” para criar uma armadura capaz de mantê-lo vivo, e que o ajuda a escapar de seus raptores, no caso, um cruel general que escravizava outros vietnamitas, e assim nasce o Homem de Ferro. A partir daí, as histórias do herói sofriam constante influência da Guerra Fria, em suas tramas e vilões, o próprio Tony Stark, era uma perfeita alusão ao capitalismo americano, afinal, ele era um inventor, industrial, e fabricante de armas, o que o colocava diretamente em confronto com vilões comunistas, como o Dínamo Escarlate e o Homem de Titânio, ambos “versões soviéticas” do próprio Homem de Ferro, ou então o Mandarim, que embora não tivesse uma ideologia definida nos quadrinhos, era o representante da China comunista de Mao Tsé Tung nas histórias do Homem de Ferro. Outro fator muito real explorado nas histórias do personagem, foi o alcoolismo, sofrido pelo próprio Tony Stark, mas isso já é outra história.
OS X-MEN E O PRECONEITO
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A equipe, também criação da dupla Stan Lee e Jack Kirby, apareceu pela primeira vez em “The X-Men #1 (setembro de 1963)”, e assim como todos os outros heróis da editora, traziam o seu “apelo” para com a realidade, uma questão que ainda é tão atual e séria quanto era lá em 63 e nos anos que se seguiram nas histórias dos personagens, o preconceito. Os chamados mutantes, também chamados de “homo superior” eram pessoas nascidas com um chamado “gene X” que lhes concedia habilidades especiais, que geralmente se manifestavam na adolescência, Charles Xavier, funda uma escola e cria os X-Men para acolher estes mutantes e ensiná-los a lidar com seus dons e “proteger um mundo que os teme”. A criação dos X-Men foi fortemente influenciada pela questão dos cidadãos negros, algo que estava em muita evidência na época através dos debates/embates entre Martin Luther King e Malcolm X em relação aos direitos dos negros, inclusive, ambos foram as inspirações para os personagens de Charles Xavier e Magneto, respectivamente. Xavier defendia que humanos e mutantes deviam viver juntos, de forma pacífica, já Magneto tinha ideais mais rígidas e defendia a supremacia mutante e a união dos mesmos para enfrentar, inclusive com violência, a opressão sofrida por sua raça (embora ter concordado com Xavier no passado). Os ideais de Xavier e Magneto em muito lembravam os de Martin Luther King e Malcolm X, em ambos os casos, os “rivais” queriam apenas o melhor para seu povo, mas de formas diferentes, uma mais pacífica, e outra mais rígida. Porém, não é apenas o preconceito contra os negros que é representado nas histórias dos X-Men, mas com todas as minorias, incluindo os gays, por exemplo. Ao longo dos anos a questão foi muito evidenciada, vários são os momentos nas histórias destes personagens em que eles se deparam com situações muito reais, em que mutantes são reprimidos de forma violenta por humanos preconceituosos, isso também era evidenciado em alguns vilões da equipe como os robôs Sentinelas, criados para caçar mutantes, ou então organizações anti-mutantes e fanáticos religiosos, estes muito bem representados através do personagem William Stryker e sua seita anti-mutante, que em muito lembravam a Ku Klux Klan, seita racista sobre a qual você com certeza já ouviu falar, eu suponho. Em uma história recente, a questão do apoio as minorias foi além, e em “Astonishing X-Men #51 (agosto de 2012)” vemos o primeiro casamento gay da história dos quadrinhos, entre o mutante Estrela Polar e seu companheiro, algo que teve bastante repercussão na mídia mundial.

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Seja como for, a história da Marvel está repleta de influências do mundo real, em histórias que nos fazem pensar e refletir sobre fatos e questões da realidade, sejam fatos históricos, questões polêmicas ou até mesmo dilemas simples e humanos.

Por Adriel Dalla Vecchia

Fonte: Cultura Inútil

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