Scott
Snyder havia se notabilizado com uma história no selo Vertigo,
passando os roteiros de O Vampiro Americano para Stephen King no começo e depois fechando a saga
sozinho. Após fazer dez números de Detective Comics, Snyder se tornaria um dos queridinhos de Dan
Didio e de todo o
editorial da DC Comics responsável por Superman
Sem Limites e
pelas primeiras histórias do Monstro do Pântano. A primeira mostra
dessa predileção é o título do Batman, que conta com desenhos de Greg
Capullo.
Gotham é a
imagem e semelhança de seu protetor, tanto é que o único bandido que se
diferencia da patuleia é o Coringa. Não há uma introdução da origem do
personagem. A figura que (supostamente) sofreu pouco ou quase nada com o reboot,
de modo que a história de sua origem é postergada. Voltando à máxima da
definição da cidade, Bruce Wayne, em discurso, fala que Gotham é algo
indefinido, entre lar, família e/ou propósito. Diante de toda essa esperança,
Bruce é apresentado a Lincoln March, CEO da March Venture,
magnata e homem de negócio de importância enorme para a cidade, visto que quer
se tornar prefeito.
O mistério
de um assassinato leva Batman a investigar o que seria a ação de um serial
killer, que, segundo testes de DNA, bateria com as descrições de
Dick Grayson, seu primeiro parceiro, o que estabeleceria uma clara quebra de
confiança. Paralelo a isto, Lincoln March se aproxima de Bruce, mas não para
captar apoio público ou verba para sua campanha, mas sim para ganhar um único
voto, o do herdeiro e reconstrutor de Gotham. Há uma tentativa clara de
criar-se uma ponte entre os dois socialites de Gotham, até pelo passado
semelhante de ambos, pois Lincoln também foi órfão muito cedo. Mas a bela
discussão dos dois é interrompida por um assassino, com vestes de coruja, que
esfaqueia o político na frente de um temporariamente inerte Wayne. A reação de
Bruce é de parecer defender-se de modo legítimo, como se tivesse sorte, e, como
era de se esperar, o alvo real era mesmo ele. A Corte das Corujas é revelada
aos seus olhos, e ele reafirma a promessa de que a cidade só teria uma lenda: o
Batman.
Uma das coisas mais interessantes dessa nova abordagem é o uso que o
detetive dá à tecnologia, com interfaces mais interativas e dispositivos de
alto rendimento e fácil manuseio – ao menos para ele. Nas palavras de Alfred, é
como se a Batcaverna fosse levada para qualquer lugar através de uma “simples”
lente ocular. As ultrapassadas ideias de que um computador do tamanho de uma
caverna seria mais eficiente que dispositivos portáteis repletos de memória
foram finalmente deixadas de lado, evoluindo alguns dos conceitos apresentados
na fase de Grant Morrison à frente do
número.
Os problemas
do roteiro de Snyder não são grotescos, mas sim de
concepção. A ideia de instalar uma sociedade secreta – formada por novos ricos,
que tem em si um número grande de assassinos treinados, e que se vale dos
décimos terceiros andares dos prédios da metrópole – é curiosa, mas inverossímil.
Acreditar que todo aquele aparato ficou incógnito por décadas e só seria
descoberto pelo maior detetive do mundo em pleno século XXI é contestável
demais, além de exigir do leitor uma suspensão de descrença imensa. A vontade
de emular a questão de que os ninhos de corujas são feitos em lugares
escondidos, longe dos olhos humanos mas próximos de seus lares, tem uma
intenção genuína, porém conta com uma execução fraca.
Com o
desenrolar da trama, Batman se recusa a acreditar na existência da Corte
das Corujas, um pouco por falta de fé, mas também por deixar
transparecer um pouco de preciosismo e egocentrismo, e tal erro lhe custa caro.
O Morcego é convidado a enfrentar seus opositores em um labirinto soturno,
um local que, mesmo que o personagem geralmente se sinta à
vontade, torna-se amedrontador. O embate não é exatamente físico e varia entre
delírios mentais envolvendo o passado de Gotham e a realidade perigosa e
predatória que ataca o vigilante.
A arte de Capullo tem uma qualidade que é no mínimo
discutível, mas ganha bons momentos nas edições cinco e seis, onde ele decide
usar o seu lápis de modo mais anárquico, fazendo o seu Batman ficar até mais
parrudo, semelhante ao que ocorrera com o Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.
O oponente
Garra é um combatente interessante no começo, mas logo se mostra um sujeito
comum, sendo mais um vilão ordinário e pouco diferenciado da patuleia criminosa
de Gotham. Uma caça que ocorre na cadeia alimentar natural das aves sobre os
mamíferos voadores. A explicação de Bruce a Dick de que ele poderia ser um
membro da tal corte é risível, graças ao famigerado soco cirúrgico de Batman,
que consegue arrancar exatamente o dente com a inscrição da ave esculpida. A
solução é fraquíssima e causa gargalhadas em quem acompanha as desventuras do
Cruzado Encapuzado. Logo depois, a Corte manda seu “exército de Garras” cruzar
o caminho de Bruce Wayne, no que seria a primeira mega saga envolvendo a
batfamília, denominada Noite das Corujas. Apesar dos muitos tropeços, os
primeiros sete números de Batman mostram uma aventura escapista até
divertida, claro, levando-se em conta concessões às problemáticas infantis.
Por Filipe Pereira
Fonte: Vortex Cultural
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