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Planeta Resenha DC: Batman: O Homem que Ri

Publicada no Brasil pela Panini em 2005, a história “Batman O Homem que Ri” (“The Man who laughs”) nos remete ao primeiro ano do Batman como Batman, contando-nos a primeira aparição do Coringa, como Coringa. Parece até uma grande brincadeira falando assim, mas a história contada por Ed Brubaker e desenhada pelo magnífico Dough Mahnke, não tem nada de inocente. Brubaker tinha uma missão um pouco ingrata: revisitar a história que se passa em Batman #1, que já havia sido esquecida fazia anos. Nela, vemos a primeira aparição do Coringa em Gotham City, ainda bem longe do lunático que conhecemos (fato que é bastante enfatizado na fase do Batman de Morrison), se mostrando apenas como um criminoso (quase) comum, que está matando gente por toda Gotham. Porém, como a história era um tipo de “revival”, e não necessariamente uma reedição, tivemos alguns elementos adaptados a nova mitologia do Batman.

batman o homem que ri

Primeiramente, é importante ressaltar que essa história é o ponto chave da origem do Coringa enquanto vilão na Era Moderna. Até mesmo seu título remete a origem do personagem, já que “Batman O Homem que Ri” é um filme de 1928, estrelado por Conrad Veidt, cujo personagem (ao lado) influenciou e muito na caracterização do palhaço do crime. Como em “Batman: O Longo dia das bruxas”, de Jeph Loeb, já havíamos visto o Coringa agir, e na história não existe nenhuma menção a Dick Grayson, ficou estabelecido que o Coringa teria que surgir no primeiro ano de Batman como vigilante, visto que a história de Loeb é enquadrada dentro do “Ano Dois” do morcego, e a primeira aparição de Robin, apenas no “Ano Três” (que também foi mostrado por Loeb, podendo ser visto na história “Vitória Sombria”, de 1999).


A história começa exatamente do ponto em que termina Batman Ano Um. O antigo comissário Loeb fora afastado por corrupção e agora um novo nome ocupa o cargo. James Gordon acaba de ser promovido a capitão, e um louco homicida ameaça os reservatórios da cidade. É claro que as coisas não aconteceram tão rápido quanto aparecem em Ano Um, mas assim como Jeph Loeb soube aproveitar em “O Longo Dia das Bruxas” as pontas soltas deixadas por Frank Miller (que na época, ainda era Frank Miller), Brubaker não fez diferente e usou adequadamente as pontas certas para conduzir sua trama.
Porém, logo no início, o roteirista já faz uma mudança (necessária, diga-se de passagem) no personagem Jim Gordon. No final de “Ano Um”, ele parece relaxado e tranquilo, enquanto que no início de “Batman O Homem que Ri”, ele chega atordoado ao local. A melhor justificativa para o enredo se manter coeso, seria a de que Gordon estava feliz por Batman ter surgido, dando esperança a ele para lutar, mas ainda não tinha noção do estrago no lugar que o Coringa havia agido. E que estrago! Ninguém sabe o que exatamente ocorreu ali, porém, a barbárie era visível a olho nu. Um galpão abandonado com uma dúzia de corpos, todos deformados. Atônito com a imagem, relembra que o último ano fora tão estranho quanto as mortes. Tudo desde a aparição do Homem Morcego. Engraçado que o roteirista aproveita essa deixa para situar o leitor no período histórico do Universo DC, com Gordon vendo que as mudanças não estão só em Gotham, como também em Metrópolis e Keystone, mostrando que os demais heróis já vieram a público.
Em seguida vemos a chegada soturna de Batman, e sua reação, dizendo que aquelas vítimas já deveriam estar ali a mais de um mês. O criminoso estava apenas “praticando”. Paralelamente, temos a vida social de Bruce Wayne, que é para ele próprio um martírio, já que deveria estar trabalhando em outras coisas mais importantes, sem contar o fato de ser obrigado a conviver com homens, que ele próprio investiga e caça, quando põe o manto. Eis então que surge o Coringa na televisão, apontando para sua primeira vítima: o milionário Henry Claridge.
Curiosamente, o primeiro alvo do Coringa permanece o mesmo (com relação a Batman #1), e omodus operandi também (o alvo morre a meia-noite), porém, a motivação é diferente. Na história de Bill Finger, o palhaço do crime ataca as casas dos milionários justamente por eles possuírem muito dinheiro. Já na trama escrita por Brubaker, a motivação é vingança (ainda veremos por quem ou pelo que). Além disso, graças a esse personagem (Claridge), podemos notar algo muito interessante na arte de Doug Mahnke: ele tenta manter todos os personagens fiéis aos desenhos originais de Bob Kane, desde o Coringa até os personagens menores. Talvez o único que não tenha tido esse trato tenha sido Gordon, já que no desenho de Kane, ele parecia ser bem mais velho que na história de Frank Miller e consequentemente, na história de Brubaker.
Voltando, Bruce tenta seguir o rastro do criminoso, que durante o aviso, matou uma equipe de jornalistas. Em um dos momentos mais bacanas da história (e que vemos se repetir em “O Cavaleiro das Trevas”, último filme do morcego), Gordon percebe que o Batman já esteve na cena do crime, e pede para ficar um pouco sozinho, pois na verdade, já sabe que o morcego está lhe esperando. O próximo diálogo entre os dois descreve bem como cada um enxerga o Coringa:
  
Perceberam? A visão simplista do Batman com relação ao criminoso: “Ele é só um assassino”. Para o morcego, ele é apenas mais um, não diferente dos supersticiosos e covardes que perseguiu e prendeu nesse ano que passou, e deve ser caçado e encarcerado como todos os outros. Porém, Jim Gordon sente que agora era diferente. Esse novo bandido era pior do que tudo que já haviam visto antes, e tem consciência também que o vigilante sabe disso. E conforme havia prometido, o Coringa, à meia-noite, mata Henry Claridge. Batman tenta intervir, mas já era tarde. O homem estava morto. A diferenciação na respiração que ele acreditou ser nervosismo, já era a toxina agindo no corpo do milionário. Deixando a equipe da SWAT atônita com sua entrada, mas sem dar importância para eles, ouve que dois criminosos insanos estão atacando o centro de Gotham. Segue então para o local, e enquanto tenta impedi-los, a população observa o show de acrobacias e golpes, percebendo que o Homem Morcego não é um mero mito popular (e essa é uma cena muito bacana também).
A história prossegue, e Brubaker consegue descrever bem o Coringa, na cena em que Gordon vai à penitenciária em que estavam os criminosos insanos, libertos pelo palhaço. Um dos que sobreviveram ao ataque, descreveu que o bandido nem olhou nos olhos das vítimas, como se matá-los não tivesse importância alguma, e em seguida, libertou os loucos. Isso parece muito também com algo que vimos em “O Cavaleiro das Trevas”. Vocês se lembram da cena do banco, logo no início, em que o Coringa mata o motorista do ônibus sem nem olhar para ele? Sem contar que ele usa capangas tão loucos quanto ele para chegar aos seus fins. Isso já denota a importância desta história para o universo do Morcego.
Enquanto que Gordon recolhe informações para seu relatório, Bruce estuda os dados que já tem. Mais uma vez, o roteirista soube aproveitar bem as personalidades dos personagens, assim como o desenhista da história, que retratou Bruce Wayne de uma forma brilhante. Brubaker usa um artifício muito comum na época da Era de Ouro dos Quadrinhos, em que o personagem compartilha com o leitor todo o processo dedutivo de raciocínio. O palpite de Bruce, de que o milionário já havia sido infectado antes, está certo, como podemos ver em Batman #1, com a confissão do Coringa, para o leitor, de seu plano.
O palhaço então indica uma segunda vítima, Jay Wilde (que também coincide com a 2ª vítima de Batman #1), que logo é cercado de policiais. No entanto, um helicóptero repentinamente entra pela casa do milionário, e assim como na edição de 1940, o ambiente se enche de gás, atordoando os presentes, e Wilde é morto por um tiro, cujo projétil continha quantidade concentrada da toxina. Tentando impedir o palhaço de fugir, Batman o segura, e começa a tomar consciência da loucura do sujeito. Isso de certa forma, foi também aproveitado em “O Cavaleiro das Trevas”, na cena do interrogatório, pois enquanto o Batman surrava o Coringa, só o que ele fazia era rir, mostrando toda a loucura do palhaço. Porém, mesmo assim, o Coringa foge.
Nos quadros seguintes, vale a pena destacar como o roteirista foi sagaz em enfatizar o lado detetive do Batman, com ele identificando qualquer relação entre os dois mortos, se disfarçando duas vezes, uma de faxineiro e outra de repórter, para conseguir alguma pista a mais para o caso. Vendo que os dois nomes indicavam para a Química Ace (á mesma de “A Piada Mortal”), começa a suspeitar do envolvimento do Capuz Vermelho nos crimes. Jogando um papo para os operários, dizendo-se ser repórter, descobre que os tanques de resíduos causavam branqueamento da pele e deixavam os pelos verdes. Era suficiente.
A história então começa a entrar no seu desfecho, e Bruce faz uma observação que vale se ressaltar: “Obviamente, não lidamos com alguém racional. Então como decifrar os planos de um louco? Nunca me preparei para isto. Estudei assassinos, ladrões, estupradores… Mas nunca imaginei alguém como o Coringa”. Vamos fazer um paralelo sobre toda a história escrita por nosso patrocinador oficial, Grant Morrison, em que você pôde acompanhar aqui no Multiverso DC, recentemente. Toda a psicose do Batman começou quando ele percebeu que o Coringa, um assassino a sangue frio, rompia os limites do que ele conhecia e entendia. Como sua meta sempre foi a perfeição física e intelectual, ele começa a querer entender a mente do Coringa, de várias formas possíveis até chegar ao limite de se submeter ao experimento do Dr. Hurt. É claro que tudo isso não estava planejado na época, mas é interessante ver como o Batman sempre teve uma verdadeira obsessão pelo modus operandi do palhaço, sendo que ele próprio duvida se existe algum padrão nos atos do criminoso, ou se é apenas loucura manifesta.
A terceira vítima do criminoso mantém-se a mesma da edição de 1940, o Juiz Thomas Lake, mas a quarta é novidade: Bruce Wayne. Cercando as duas potenciais vítimas, a polícia tenta de toda a maneira os proteger, mas vendo que o Coringa precisava ser detido, Bruce injeta em si próprio o veneno do Coringa, tendo um ataque em seguida. Tudo arquitetado para ele poder sair como Batman. Porém, ele tenta se conter, mas não consegue, e acaba por perceber porque o criminoso é como é, porque carrega tanto ódio, e finalmente, compreende seu plano.
O Coringa quer vingança, não contra um homem, ou um grupo de homens, mas contra toda a Gotham. Como vimos em “A Piada Mortal”, o Coringa era um comediante fracassado, que se embrenhou no mundo do crime por desespero (aliás, na história de Allan Moore, o palhaço chega a ser digno de pena, de tanto que ele sofre). Ele então tem a mente corrompida pelo contato direto à toxina, e só não enlouquece como as demais vítimas (que ele fez posteriormente), pois já havia surtado antes mesmo disso. Essa substância apenas intensificou a situação que já era ruim. De algum modo louco, ele acredita que a omissão de Gotham com relação a sua situação (como se ele fosse alguém em especial), o levou a ser o que é. Isso é muito comum em psicopatas, se justificando por ninguém tê-lo estendido a mão, mas deixemos a análise do Coringa para outro dia e nos foquemos na história em questão. Para finalmente atingir seu objetivo, pretendeu envenenar toda a tubulação de esgoto de Gotham com sua toxina.
Batman então chega ao local, derrubando os capangas, um por um. No combate decisivo contra o Coringa, o Morcego frustra os planos do palhaço explodindo toda a tubulação de esgotos da cidade. E no último revival da edição, Batman salva o Coringa de cair no próprio veneno, e lhe dá uma bela surra, mandando-o em seguida para o recém-inaugurado Asilo Arkham.
O momento derradeiro da história lembra muito o final do filme Batman Begins (até mesmo o fato da cidade ficar semanas sem água), porém, como a revista foi lançada no mesmo ano que o filme, fica difícil saber qual história influenciou qual, porém, o que se sabe é que o desfecho é incrível, e Brubaker consegue fechar essa história de maneira literalmente brilhante, pois a revista se encerra com o Bat-Sinal refletindo no céu, chamando a atenção de todos, que agora sabem que eles possuem um protetor, para este mundo novo que começa a surgir.
Portanto, leitura mais do que obrigatória, sendo encontrada hoje somente em lojas e sites especializados. Vamos torcer para que a Panini relance essa edição com os 70 anos do morcego aí, com mais histórias relacionadas ao período!
Por Luis Alberto
Fonte: Terra Zero


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