Publicada no Brasil
pela Panini em 2005, a história “Batman O Homem que Ri” (“The Man who laughs”) nos remete ao primeiro ano do Batman como Batman,
contando-nos a primeira aparição do Coringa, como Coringa. Parece até uma
grande brincadeira falando assim, mas a história contada por Ed Brubaker e
desenhada pelo magnífico Dough Mahnke, não tem nada de inocente. Brubaker tinha
uma missão um pouco ingrata: revisitar a história que se passa em Batman #1,
que já havia sido esquecida fazia anos. Nela, vemos a primeira aparição do
Coringa em Gotham City, ainda bem longe do lunático que conhecemos (fato
que é bastante enfatizado na fase do Batman de Morrison), se mostrando apenas
como um criminoso (quase) comum, que está matando gente por toda Gotham. Porém,
como a história era um tipo de “revival”, e não necessariamente uma reedição, tivemos alguns
elementos adaptados a nova mitologia do Batman.
Porém, logo no início, o roteirista já faz uma mudança (necessária,
diga-se de passagem) no personagem Jim Gordon. No final de “Ano Um”, ele parece
relaxado e tranquilo, enquanto que no início de “Batman O Homem que Ri”, ele
chega atordoado ao local. A melhor justificativa para o enredo se manter coeso,
seria a de que Gordon estava feliz por Batman ter surgido, dando esperança a
ele para lutar, mas ainda não tinha noção do estrago no lugar que o Coringa
havia agido. E que estrago! Ninguém sabe o que exatamente ocorreu ali, porém, a
barbárie era visível a olho nu. Um galpão abandonado com uma dúzia de corpos,
todos deformados. Atônito com a imagem, relembra que o último ano fora tão
estranho quanto as mortes. Tudo desde a aparição do Homem Morcego. Engraçado
que o roteirista aproveita essa deixa para situar o
leitor no período histórico do Universo DC, com Gordon vendo
que as mudanças não estão só em Gotham, como também em Metrópolis e Keystone,
mostrando que os demais heróis já vieram a público.
Em seguida
vemos a chegada soturna de Batman, e sua reação, dizendo que aquelas vítimas já
deveriam estar ali a mais de um mês. O criminoso estava apenas “praticando”.
Paralelamente, temos a vida social de Bruce Wayne, que é para ele próprio um
martírio, já que deveria estar trabalhando em outras coisas mais importantes,
sem contar o fato de ser obrigado a conviver com homens, que ele próprio
investiga e caça, quando põe o manto. Eis então que surge o Coringa na
televisão, apontando para sua primeira vítima: o milionário Henry Claridge.
Curiosamente,
o primeiro alvo do Coringa permanece o mesmo (com relação a Batman #1), e omodus operandi também (o alvo morre a
meia-noite), porém, a motivação é diferente. Na história de Bill Finger, o
palhaço do crime ataca as casas dos milionários justamente por eles possuírem
muito dinheiro. Já na trama escrita por Brubaker, a motivação é vingança (ainda
veremos por quem ou pelo que). Além disso, graças a esse personagem (Claridge),
podemos notar algo muito interessante na arte de Doug Mahnke: ele tenta manter
todos os personagens fiéis aos desenhos originais de Bob Kane, desde o Coringa
até os personagens menores. Talvez o único que não tenha tido esse trato tenha
sido Gordon, já que no desenho de Kane, ele parecia ser bem mais velho que na
história de Frank Miller e consequentemente, na história de Brubaker.
Voltando,
Bruce tenta seguir o rastro do criminoso, que durante o aviso, matou uma equipe
de jornalistas. Em um dos momentos mais bacanas da história (e que vemos se repetir
em “O Cavaleiro das Trevas”, último filme do morcego), Gordon percebe que o
Batman já esteve na cena do crime, e pede para ficar um pouco sozinho, pois na
verdade, já sabe que o morcego está lhe esperando. O próximo diálogo entre os
dois descreve bem como cada um enxerga o Coringa:
Perceberam? A visão simplista do Batman com relação ao criminoso: “Ele é
só um assassino”. Para o morcego, ele é apenas mais um, não diferente dos
supersticiosos e covardes que perseguiu e prendeu nesse ano que passou, e deve
ser caçado e encarcerado como todos os outros. Porém, Jim Gordon sente que agora
era diferente. Esse novo bandido era pior do que tudo que já haviam visto
antes, e tem consciência também que o vigilante sabe disso. E conforme havia
prometido, o Coringa, à meia-noite, mata Henry Claridge. Batman tenta intervir,
mas já era tarde. O homem estava morto. A diferenciação na respiração que ele
acreditou ser nervosismo, já era a toxina agindo no corpo do milionário.
Deixando a equipe da SWAT atônita com sua entrada, mas sem dar importância para
eles, ouve que dois criminosos insanos estão atacando o centro de Gotham. Segue
então para o local, e enquanto tenta impedi-los, a população observa o show de
acrobacias e golpes, percebendo que o Homem Morcego não é um mero mito popular
(e essa é uma cena muito bacana também).
A história
prossegue, e Brubaker consegue descrever bem o Coringa, na cena em que Gordon
vai à penitenciária em que estavam os criminosos insanos, libertos pelo
palhaço. Um dos que sobreviveram ao ataque, descreveu que o bandido nem olhou
nos olhos das vítimas, como se matá-los não tivesse importância alguma, e em
seguida, libertou os loucos. Isso parece muito também com algo que vimos em “O
Cavaleiro das Trevas”. Vocês se lembram da cena do banco, logo no início, em
que o Coringa mata o motorista do ônibus sem nem olhar para ele? Sem contar que
ele usa capangas tão loucos quanto ele para chegar aos seus fins. Isso já
denota a importância desta história para o universo do Morcego.
Enquanto que
Gordon recolhe informações para seu relatório, Bruce estuda os dados que já
tem. Mais uma vez, o roteirista soube aproveitar bem as personalidades dos
personagens, assim como o desenhista da história, que retratou Bruce Wayne de
uma forma brilhante. Brubaker usa um artifício muito comum na época da Era de
Ouro dos Quadrinhos, em que o personagem compartilha com o leitor todo o
processo dedutivo de raciocínio. O palpite de Bruce, de que o milionário já
havia sido infectado antes, está certo, como podemos ver em Batman #1, com a
confissão do Coringa, para o leitor, de seu plano.
O palhaço então indica uma segunda vítima, Jay Wilde (que também
coincide com a 2ª vítima de Batman #1), que logo é cercado de policiais. No
entanto, um helicóptero repentinamente entra pela casa do milionário, e assim
como na edição de 1940, o ambiente se enche de gás, atordoando os presentes, e
Wilde é morto por um tiro, cujo projétil continha quantidade concentrada da
toxina. Tentando impedir o palhaço de fugir, Batman o segura, e começa a tomar
consciência da loucura do sujeito. Isso de certa forma, foi também aproveitado
em “O Cavaleiro das Trevas”, na cena do interrogatório, pois enquanto o Batman
surrava o Coringa, só o que ele fazia era rir, mostrando toda a loucura do
palhaço. Porém, mesmo assim, o Coringa foge.
Nos quadros
seguintes, vale a pena destacar como o roteirista foi sagaz em enfatizar o lado
detetive do Batman, com ele identificando qualquer relação entre os dois
mortos, se disfarçando duas vezes, uma de faxineiro e outra de repórter, para
conseguir alguma pista a mais para o caso. Vendo que os dois nomes indicavam
para a Química Ace (á mesma de “A Piada Mortal”), começa
a suspeitar do envolvimento do Capuz Vermelho nos crimes. Jogando um papo para
os operários, dizendo-se ser repórter, descobre que os tanques de resíduos
causavam branqueamento da pele e deixavam os pelos verdes. Era suficiente.
A história então começa a entrar no seu desfecho, e Bruce faz uma
observação que vale se ressaltar: “Obviamente, não lidamos com alguém racional. Então
como decifrar os planos de um louco? Nunca me preparei para isto. Estudei
assassinos, ladrões, estupradores… Mas nunca imaginei alguém como o Coringa”. Vamos fazer um paralelo sobre toda a
história escrita por nosso patrocinador oficial, Grant Morrison, em que você
pôde acompanhar aqui no Multiverso DC, recentemente. Toda a psicose do Batman
começou quando ele percebeu que o Coringa, um assassino a sangue frio, rompia
os limites do que ele conhecia e entendia. Como sua meta sempre foi a perfeição
física e intelectual, ele começa a querer entender a mente do Coringa, de
várias formas possíveis até chegar ao limite de se submeter ao experimento do
Dr. Hurt. É claro que tudo isso não estava planejado na época, mas é
interessante ver como o Batman sempre teve uma verdadeira obsessão pelo modus
operandi do palhaço,
sendo que ele próprio duvida se existe algum padrão nos atos do criminoso, ou
se é apenas loucura manifesta.
A terceira
vítima do criminoso mantém-se a mesma da edição de 1940, o Juiz Thomas Lake,
mas a quarta é novidade: Bruce Wayne. Cercando as duas potenciais vítimas, a
polícia tenta de toda a maneira os proteger, mas vendo que o Coringa precisava
ser detido, Bruce injeta em si próprio o veneno do Coringa, tendo um ataque em
seguida. Tudo arquitetado para ele poder sair como Batman. Porém, ele tenta se
conter, mas não consegue, e acaba por perceber porque o criminoso é como é,
porque carrega tanto ódio, e finalmente, compreende seu plano.
O Coringa quer vingança, não contra um homem, ou um grupo de homens, mas
contra toda a Gotham. Como vimos em “A Piada Mortal”, o Coringa era um
comediante fracassado, que se embrenhou no mundo do crime por desespero (aliás,
na história de Allan Moore, o palhaço chega a ser digno de pena, de tanto que
ele sofre). Ele então tem a mente corrompida pelo contato direto à toxina, e só
não enlouquece como as demais vítimas (que ele fez posteriormente), pois já
havia surtado antes mesmo disso. Essa substância apenas intensificou a situação
que já era ruim. De algum modo louco, ele acredita que a omissão de Gotham com
relação a sua situação (como se ele fosse alguém em especial), o levou a ser o
que é. Isso é muito comum em psicopatas, se justificando por ninguém tê-lo
estendido a mão, mas deixemos a análise do Coringa para outro dia e nos
foquemos na história em questão. Para finalmente atingir seu objetivo,
pretendeu envenenar toda a tubulação de esgoto de Gotham com sua toxina.
Batman então
chega ao local, derrubando os capangas, um por um. No combate decisivo contra o
Coringa, o Morcego frustra os planos do palhaço explodindo toda a tubulação de
esgotos da cidade. E no último revival da edição, Batman salva o Coringa de
cair no próprio veneno, e lhe dá uma bela surra, mandando-o em seguida para o
recém-inaugurado Asilo Arkham.
O momento derradeiro da história lembra muito o final do filme Batman
Begins (até mesmo o fato da cidade ficar semanas sem água), porém, como a
revista foi lançada no mesmo ano que o filme, fica difícil saber qual história
influenciou qual, porém, o que se sabe é que o desfecho é incrível, e Brubaker
consegue fechar essa história de maneira literalmente brilhante, pois a revista
se encerra com o Bat-Sinal refletindo no céu, chamando a atenção de todos, que
agora sabem que eles possuem um protetor, para este mundo novo que começa a
surgir.
Portanto,
leitura mais do que obrigatória, sendo encontrada hoje somente em lojas e sites
especializados. Vamos torcer para que a Panini relance essa edição com os 70
anos do morcego aí, com mais histórias relacionadas ao período!
Por Luis Alberto
Fonte: Terra Zero
0 Comentários