A primeira
saga pós-reboot da DC que envolve mais de um título
surge através do herói mais popular (e caça-níqueis) da editora. A
Noite das Corujas tem
uma introdução presente nos primeiros sete números de Batman,
de Scott Snyder e Greg Capullo, com o arco denominado A Corte das Corujas, que insere um culto secreto que
influencia diretamente no curso da cidade, tomando para si os décimos-terceiros
andares de todos os prédios da metrópole e liberando assassinos exímios que
servem de capangas aos seus propósitos malignos, os Garras.
As
revistas acessórias servem para mostrar como se alastrou a ameaça da Corte,
especialmente em Asa Noturna - que mostra um Dick
Grayson com uma causa pessoal – , desenhada magistralmente pelo brasileiro Eddy
Barrows. Outras histórias paralelas servem como Tains da linha
universal da trama. O checklist oficial inclui edições de Batwing,Batgirl, All
Star Western, Batman e Robin, Mulher
Gato, Detective Comics, Batman
O Cavaleiro das Trevas, Capuz
Vermelho e os Foras da Lei e Aves
de Rapina.
Em Batman
9, a batalha dentro da mansão Wayne prossegue, com o Cruzado
Encapuzado usando uma mega-armadura, a la Robocop, para combater o exército de
capangas super-desenvolvidos. Em uma manobra semelhante a que fez em Ano
Um, o herói se desvencilha dos opositores com seus companheiros
mamíferos, para logo depois se enfiar em uma investigação pela cidade, em
que chega atrasado para a execução de Lincoln March. Mais uma vez, a
side-line envolvendo os Penyworths, ao final da edição, apresenta uma faceta
mais interessante da saga. Os desenhos de Albuquerque abrilhantam demais as seções e tiram
um pouco a sensação ruim deixada ao leitor ao ter de suportar a arte de Capullo. As origens explanadas
incluem também tramas pretéritas do casal Thomas e Martha a respeito do que
seria a Gotham do presente. A chamada Queda da Casa de Wayne é narrada por Jarvis Pennyworth, pai
do fiel mordomo.
Incrivelmente
as edições de Batgirl não estão mal escritas. Gail
Silmone, que estava à frente há pouco tempo dos roteiros de Aves
de Rapina até faz
um bom começo, com aventuras pouco rebuscadas e de cunho escapista. Até a
escolha em por Barbara Gordon tendo um embate contra uma mulher parece ser uma
escolha acertada, mesmo que soe covarde. Já em Batman
e Robin, a publicação se baseia inteira no carisma de Damian
Wayne, que não é pouco. Sua popularidade segura muito bem o
título e a violência gráfica também prende a atenção do leitor.
Um dos elementos que deveria ser o diferencial positivo da série acaba por
vezes sendo um flagrante defeito. A motivação da Corte das Corujas seria a de
limpar a cidade, mas como dito pelos próprios membros, eles são um meio-termo
entre a justiça e o crime, o meio-termo entre o bem e o mal, o cinza que
converge entre preto e branco. Esse posicionamento pretensamente equilibrado
parece mais com algo pouco engajado do que um movimento taxativo. Serve para
justificar o sobrenome do Asa Noturna, pois ele seria o “filho do Cinza” – Gray
Son – e este argumento não é uma piada. Essa máxima precisava ser melhor
trabalhada, e a negligência não se justifica por falta de espaço, visto
que muitos números da saga nada dizem, ou seja, havia espaço para fundamentar isso.
Um dos
desfechos da saga se dá em Batman Annual 1, com roteiros de Scott
Snyder e James
Tynion IV, com desenhos de Peter Steigerwald, em uma história
que explica um pouco a origem de Victor Fries – o Senhor Frio – além de contar
qual foi a sua participação na “ressurreição” dos Garras que atacaram os alvos
propostos pela alta cúpula. A gênese do vilão é trágica igual ao seu background
pós-Crise nas Infinitas Terras,
mas neste é atrelada a Waynetech e (muito) pessoalmente a Bruce, que destitui o
cientista de sua pesquisa para a cura de sua esposa, por este não estar
desempenhando bem o seu ofício empregatício primário. O herdeiro de ouro de
Gotham tem uma postura muito radical e até meio egoísta, especialmente em
contraste com o que falava no início do arco, sobre esperança, amor e
paz, negand0-se a solidariedade que viria junto a todos esses bons
predicados.
O plot twist abre mão de uma condição praticamente canônica relativa a
Senhor Frio somente para justificar a motivação de uma sociedade secreta (nunca
antes mencionada), um algoz que não faz jus a tais retcons.
Toda a construção relacionada a isto é chocante, mas sem qualidade; um grito
sem espírito, carente de alma, algo sensacionalista e baseado em nada. Evidente
que, a partir disso, a questionável moral do playboy órfão e filantropo volta a
ser algo inabalável.
O sacramento
da honra de Bruce é preservada; o mesmo não pode-se dizer da moral presente no
clã Wayne. A solução escolhida por Snyder para finalmente derrubar a portentosa
Corte é muito fácil, nada original, com um ar irritante de comida requentada,
pois o roteirista se vale de máximas antes utilizadas por Morrison e por Jeph
Loeb em Silêncio, que já havia aventado a
possibilidade do irmão Thomas Wayne Júnior retornar – mesmo como um
mcguffin safado –
de forma muito apelativa. O grave problema de Corte
das Corujas é que
ela termina de modo anticlimático e conservador. Todo o circo armado serviria
para fortalecer a mensagem repleta de pieguice do homem que jurou proteger a
cidade a todo custo.
Por Filipe Pereira
Fonte: Vortex Cultural
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